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Tem três jeitos diferentes de ver tulipas na Holanda, e esse post é sobre isso.

Já adianto que o meu preferido é o último (Rota das Tulipas, em Noordoostpolder), mas que super recomendo visitar o segundo (Rota dos Bulbos, perto de Amsterdam), onde fica o primeiro (Parque Keukenhof). Pois é… se depender de mim, vai acabar visitando os três. 🙂

Mas antes deixa eu te contar um pouco sobre como essas flores chegaram na Holanda e por que elas chegaram a valer mais do que uma casa no século XVII. E como isso levou ao estouro da primeira bolha financeira do mundo, a bolha das tulipas.

Tulipomania

As tulipas são originárias da Ásia, mais especificamente da região do Cáucaso, da Armênia e do Irã.

A teoria mais comum sobre sua chegada na Europa é a de que, depois de começar a ser cultivada no Império Turco Otomano a partir do ano 1000, ela teria sido levada para a Europa, no século XVI, por Ogier Ghiselain de Busbecq, embaixador do Império Austríaco.

As sementes teriam sido entregues para Carolus Clusius, botânico e diretor do Jardim Imperial de Viena.

Em 1593, quando Clusius aceitou uma posição de professor honorário de botânica na Universidade de Leiden, na Holanda, ele supervisionou o estabelecimento do Jardim. E, nele, plantou alguns de seus próprios bulbos de tulipa. No ano seguinte floresciam as primeiras tulipas da Holanda.

Naquele mesmo ano ele escreveu a um amigo reclamando que, ao invés de presentear com flores, as pessoas as estavam vendendo e que, por isso, ele recusava-se a dar bulbos para quem lhe pedia. Mas, desde 1580, as flores de Clusius vinham sendo roubadas de seus jardins

O preço da tulipa comecou a subir. Quanto mais rara a flor, mais cara.

Os especuladores perceberam uma chance de lucrar com isso: as sementes de tulipa levam de 7 a 12 anos para gerar os bulbos, que é de onde virão as flores. E as flores duram apenas cerca de uma semana por ano.

Para comercializar tulipas o ano inteiro, os especuladores começaram a vender contratos de compra futura. E esses contratos passaram a ser comercializados também. Bem parecido com os contratos de sub-prime que geraram a bolha imobiliária nos Estados Unidos em 2008.

Em 1636 as tulipas estavam tão valorizadas  que estavam sendo comercializadas nas Bolsas de Valores das principais cidades holandesas. Fala-se que uma tulipa chegava a valer 200 mil reais.

E foi assim, até que um comprador percebeu a besteira que estava fazendo e recusou-se a honrar seu contrato. Outros compradores recuaram e os precos despencaram, até que o governo, pra evitar a falência geral, decidiu pagar 10% do valor dos contratos. O que só reforcou a ideia de que fortunas tinham sido gastas em vão.

Havia estourado a primeira bolha financeira, de muitas outras que viriam depois. Mas as tulipas sobreviveram, e podem ser vistas na Holanda em todo o seu esplendor, todos os anos, entre março e maio.

 

Onde ver tulipas na Holanda

A primeira opção, e a mais turística de todas, é visitar o parque Keukenhof, onde mais de 7 milhões de flores podem ser vistas. O parque abre todos os anos, entre março e maio.

A segunda é percorrer a Rota dos Bulbos (Bollenstreek Route), que começa em Haarlem, onde iniciou a febre das tulipas no século XVII. São 68km até Naaldwijk, passando pelo parque Keukenhof e por Leiden (onde Clusius plantou suas tulipas em 1593).

A terceira é um pouquinho mais trabalhosa, mas vale a pena. A 80 km de Amsterdam fica a Rota das Tulipas (Tulpen Route), 100 km de estrada em meio aos campos de tulipas.

Parque Keukenhof

É obrigatório falar desse parque quando se fala de tulipas na Holanda. Ele existe como parque de exposições desde 1950 e tem 7 milhões de bulbos, fornecidos por 100 empresas, que todo ano exibem lá seus “catálogos”.

Durante as oito semanas em que o parque fica aberto, cerca de 1 milhão de pessoas visitam o lugar.

Fonte: http://www.keukenhof.nl

E lembra que as flores duram apenas cerca de 1 semana? Pois é! Para que o parque fique lindo durante as 8 semanas da temporada, os bulbos são cuidadosamente (e organizadamente) plantados.

O parque é redesenhado a cada ano. Esse é o mapa oficial do parque na temporada 2017:

Fonte: http://www.keukenhof.nl

A gente ficou um pouco mais de duas horas no parque. É o suficiente para quem quer só conhecer, mas querendo visitar com calma todos os jardins e exposições (nos pavilhões), fazer piquenique, sentar num café e passear nas lojinhas dá pra passar tranquilamente umas cinco ou seis horas por lá.

Os bosques são lindíssimos. Tem tulipas de todos os tipos e cores.

Meu pavilhão preferido foi o Oranje Nassau, que estava expondo arranjos de tulipas. Mas nem reparei nos arranjos: o que atraiu toda a minha atenção foi a delicadeza das flores.

Essa é a minha preferida, que apelidei de fogueirinha:

Mas o meu xodózinho no Parque foi mesmo essa florzinha fofa, que tem de montão por lá. São jacintos.

Assim como as tulipas, os jacintos são plantas bulbosas, que florescem no início da primavera.

Uma das característica das plantas bulbosas é que elas precisam de um período de frio debaixo do solo. Por isso são plantadas no fim do outono ou começo do inverno. E passam todo o inverno sem dar sinal de vida. Quanto mais frio, melhor.

Quando a temperatura sobe, no começo da primavera, elas rompem a superfície, dão flores por um período curto e depois voltam para a fase de dormência. Esse post conta direitinho. Uma delicadeza só!

Como chegar em Keukenhof

Keukenhof fica em Lisse, uma cidadezinha muito fofa, e com boas opcões de restaurante.

Mas para ir até o parque, o mais habitual é pegar o ônibus que sai do aeroporto de Amsterdam (Schiphol) direto para lá. Esse post explica em português como ir de Amsterdam até lá. E aqui dá pra olhar direto no site do parque. O site do parque mostra também como chegar a Keukenhof vindo de outras cidades.

De qualquer maneira, para quem vai pegar o ônibus Aeroporto – Keukenhof, sugiro comprar o ticket antes. Normalmente tem longas filas no balcão do aeroporto.

Outra opção mais prática – e mais cara – é pegar uma excursão para o parque, que pode ser comprada na recepção de qualquer hotel em Amsterdam. O preço por pessoa em 2017 era de cerca de 55 euros por pessoa (ingresso para o parque incluído). Mais cômodo.

Dá ainda pra ir de carro, como nós fizemos. A vantagem é poder aproveitar para passear pelo interior da Holanda (que eu achei muito mais lindo do que Amsterdam).

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Além disso, estando de carro fica super fácil de conhecer a Rota dos Bulbos (perto de Keukenhof) e a Rota das Tulipas (100 km de Keukenhof).

Dica pra quem for alugar carro: se estiver vindo de avião de outro lugar e for chegar tarde no aeroporto de Amsterdam, dá pra programar para pegar o carro na manhã seguinte. Tem vários hotéis ao redor do aeroporto com transfer gratuito “aeroporto – hotel – aeroporto”. Nós ficamos no Ibis Schiphol.

Rota dos Bulbos (Bollenstreek Route)

Ela começa em Haarlem, passa por Lisse (onde fica o parque Keukenhof) e Leiden (onde Clusius plantou suas tulipas em 1593) e termina em Naaldwijk:

A rota é por estradas secundárias asfaltadas e passa por campos de tulipas, jacintos e narcisos.

Ela é bem turística. Ao longo dela tem vendedores de flores, casas de leilão, jardins publicos e privados, museus.

Além das flores, maravilhosas, nessa rota dá pra conhecer Haarlem e Leiden.

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Em Haarlem fica o museu Frans Hals. Eu já tinha falado nesse pintor no post sobre o Louvre. Junto com Rembrandt, Vermeer e outros, Hals ficou conhecido como um dos Mestres Holandeses (Dutch Masters).

O que esses pintores tem em comum é o fato de terem vivido entre 1605 e 1680, período que ficou conhecido na história da Holanda como Anos Dourados (Dutch Golden Age).

Mais adiante está Leiden, cidade onde fica a universidade mais antiga da Holanda e o Jardim Botânico em que Clusius plantou suas tulipas. Além disso, a cidade é muito fofa. Cheia de canais. Olha nesse vídeo que bonitinha que ela é!

A rota termina em Naaldwijk. Mas, querendo, tem também 3 escapadinhas da rota que são interessantes.

Lá no começo, a 30 km de Haarlem e pertinho do aeroporto de Amsterdam, é possível visitar a  Flora Holland, a maior casa de leilões de flores do mundo.

No meio da rota, em Keukenhof, dá pra alugar uma bicicleta e passear por entre os campos de tulipas. É fácil! Na frente do parque tem uma loja de aluguel de bicicletas, a Rent-a-Bike Van Dam.

Essas são as rotas que eles sugerem nas proximidades do parque. Elas variam de 5 a 25 km:

cycleFonte: http://www.rentabikevandam-keukenhof.com/en/cycling-routes/

Dizem que essa área das rotas de bike é a mais bonita da Rota dos Bulbos. Essa foto eu tirei lá:

E, indo pra terceira escapadinha, quase no final da rota, entre Leiden e Naaldwijk, fica Delft. Essa cidade merece uma visita, é uma graça.

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Além de andar pelas ruas cheias de canais, dá pra visitar a Royal Delft Blue, uma das poucas fábricas de porcelana holandesa fundadas no século XVII que está em operação até hoje e que conseguiu manter o processo produtivo como era naquela época. A coleção The Original Blue, por exemplo, é toda pintada à mão.

Esse post conta mais sobre a visita a fábrica – e é muito divertido! Foi escrito por uma portuguesa, indignada ao descobrir que a porcelana real holandesa comecou com um ato de pirataria a barcos portugueses que traziam porcelana da China.

Delft é ainda a terra natal de Johannes Vermeer, outro dos Mestres Holandeses. Ele ficou popular na década de 2000, quando Scarlett Johansson estrelou o filme Moça com Brinco de Peróla. Esse artigo fala do quadro (abaixo), do filme e do livro em que o filme foi baseado.

 

mocaReprodução de Girl with a Pearl Earring, de Johannes Vermeer

Vermeer foi diretor da Associação de Artistas de Delft. O prédio onde ele trabalhava foi transformado em um Centro Cultural, onde é possível conhecer mais sobre sua vida, época e arte.

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Se tiver interesse em ver obras de Vermeer, aqui tem uma lista de onde elas estão.

E é isso! Em resumo, a Rota dos Bulbos tem Keukenhof, bicicleta, canais, campos de tulipa, leilões de flores, porcelana real, Mestres Holandes, casas de queijo, prédios antigos. Basicamente um pouquinho de tudo que a Holanda tem.

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Gostou? Então espia esse post. Ele explica direitinho quais estradas pegar para fazer a rota de carro inteira, de Haarlem a Naaldwijk.

A rota das Tulipas (Tulip Route, em Noordoospolder)

Essa foi a melhor parte da minha viagem para a Holanda. Eu estava lá para ver campos de tulipas e essa estrada vai zigue-zagueando pelo meio deles!!

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A rota fica em Flevoland, um estado que não existia até o seculo XX, porque era mar. Sim, era mar, que os holandeses chamavam de Zuiderzee (Mar do Sul). Nesse mar havia algumas ilhas, onde estavam as cidades de Urk, Marken e Schokland, entre algumas outras.

A ideia de transformar o mar em terra existia desde o século XVII e a tecnologia do século XX tornou isso possível. E, em 1986, Flevoland passou a ser o 12º estado da Holanda. A área em verde nesse mapa mostra o que eles aterraram.

flevolandFonte: http://www.visitholland.nl

Se quiser saber mais sobre essa história, os detalhes estão aqui e aqui.

A Rota das Tulipas fica no norte do Estado, na região chamada de Noordoostpolder. Aqui tem o mapa da rota e dá pra comecar a seguir as setas azuis de onde quiser. Quem estiver vindo de Amsterdam ou de Utrecht vai chegar pela estrada A6 e começar por aqui:

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A rota é bem sinalizada e basta seguir essas placas:

Tulpenroute2017 placa

A gente demorou um pouquinho pra achar a primeira, mas depois ficou fácil.

E na rota é tudo festa: essa é a maior área cultivada de tulipas na Holanda, 2 mil hectares.

O mais lindo são os campos: além de passear de carro, dá pra andar de bicicleta ou de helicóptero.

Achei só uma empresa fazendo o passeio de helicóptero, a Tulpenvliegroute. E para um vôo curtinho, começando em 6 minutos, nao é muito caro.

Esse site mostra onde alugar bicicleta. É em holandês, mas tem o endereço e o mapa do lugar, o que já ajuda. Eu achei a região bastante ventosa, não me deu muita vontade de andar de bicicleta, não. Mas pra quem se animar, é um passeio lindo!

Em geral não é possível caminhar pelo meio dos campos, mas nessa rota, perto de Creil (Creilerpad 14), tem um “Campo de Selfies”, onde é permitido circular livremente.

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Além dos campos, pela rota tem exposicões, feiras, cidadezinhas… Recomendo muito!

Sobre as antigas ilhas: Urk e Schokland

Urk era uma vila de pescadores, isolada do resto do mundo até 1939. Por isso tem seu próprio dialeto e sua própria versão da cultura holandesa. Pra ter uma ideia, enquanto 70% da população do país raramente vai à Igreja,  97% dos habitantes de Urk vai à missa todos os domingos. Esse artigo do New York Times conta sobre como é a vida na cidade (bizarra!).

Schokland é patrimônio histórico cultural da Unesco e tem uma história super interessante. Esse pedaco de terra se separou do continente no século XV, transformando-se numa ilha. Ela foi habitada por pescadores até 1859, quando foi invadida pelo mar.

Só na década de 1940, quando o grande projeto de aterramento do Zuiderzee (Mar do Sul) avancou, que a localidade voltou a ser habitada. Esse post fala da cidade hoje e do pequeno museu que conta essa história, com foco na dificuldade do homem em domar a natureza na região.

Pra terminar

A melhor época para ver tulipas na Holanda é no final de abril. Mas cuidado com o dia 27 – é King’s Day, a festa mais importante da Holanda. Tipo o 4 de julho nos Estados Unidos. E eles levam realmente à sério. Os hoteis e restaurantes vão estar lotados, ruas cheias, tudo isso. Se não gosta de muvuca, melhor ir uma semana antes ou depois.

Se tiver que escolher um passeio só, eu recomendo a Rota das Tulipas, em Flevoland, sem pensar! O que fizemos deu muito certo: fazer a rota num dia, dormir em Blokzijl e visitar Giethoorn no dia seguinte. Zwolle, a capital do estado de Overijssel, onde fica Giethoorn, também é bem bonitinha.

E se quiser ouvir uma segunda opinião sobre como ver tulipas na Holanda, clica aqui. Li muita coisa sobre o assunto e esse é, de longe, o melhor post que achei.

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