O que me levou a ler esse livro?

Eu tenho uma relação delicada com o tema aquecimento global.

Se, por um lado, o pensamento dominante é de que o ser humano tem uma grande influência nisso e precisa tomar atitudes drásticas e imediatas para contê-lo, por outro existem cientistas que questionam o aquecimento global e/ou acreditam que a influência do homem nas emissões de gases de efeito estufa é tão pequena que alterações do comportamento humano não alterarão as variações naturais da temperatura do planeta.

Minha primeira interação significativa com o grupo que acredita que o ser humano tem papel fundamental no controle da temperatura da Terra foi quando assisti o documentário “Uma Verdade Incoveniente“, produzido a partir de palestras do ambientalista Al Gore, que foi vice-presidente dos Estados Unidos entre 1993 e 2001.

Lembro de que, na época, não fiquei muito convencida pelos dados apresentados. Alguns anos depois, amigos me apresentaram a cientistas que criticam essa ideia, um deles sendo o brasileiro Luiz Carlos Molion.

Ele diz que “a variabilidade do clima é natural” e que “o ser humano não tem nada a ver com a ocorrência dessas alterações”. Se você quiser entender seus argumentos, leia esse artigo publicado por ele em 2008.

Em geral, não leio sobre o assunto, porque as informações são muito desencontradas, as estatísticas são confusas (às vezes contraditórias) e, muitas vezes, as opiniões sobre o tema são bastante passionais.

Mas sei que o tópico é importante e, quando vi que o Bill Gates havia escrito sobre ele, achei ter encontrado uma posição interessante sobre o assunto.

Por que um livro do Bill Gates quando há tantos outros sobre isso?

Especialmente depois de eu ter assistido ao documentário “Dentro da Mente de Bill Gates“, ele me parece o tipo de pessoa que, quando interessado, vai realmente à fundo no assunto.

Além disso, o fato de ele defender a produção de energia nuclear e investir bilhões no desenvolvimento de uma tecnologia segura, mesmo quando a opinião pública é tão crítica a essa fonte enérgica, também é um fator “que me une” à Bill. Mas vamos deixar a conversa sobre energia nuclear para outro post, porque essa é uma outra polêmica boa.

Nesse livro, ele já parte da premissa de que o ser humano é responsável pelo aquecimento global e nos diz que a única maneira de evitar um desastre é reduzindo a emissão de gases de efeito estufa de 51 bilhões de toneladas por ano para zero.

O livro começa simplificando o “bando de dados” que existe sobre aquecimento global (o que me foi bastante útil) e apresentando 5 perguntas que você deve fazer sempre que estiver discutindo o tema, explicando por que essas perguntas são importantes.

E, depois disso, o livro entra num exercício de futurismo super interessante, apresentando tecnologias para reduzir a emissão de gases de efeito estufa, mas, muito mais do que isso, que criam uma economia completamente diferente da que temos hoje.

O que mais gostei

As cinco perguntas que devemos fazer quando falamos de soluções para a mudança climática

Super interessantes para conversas com os “ecochatos”! Você vai saber rapidinho se ele sabe do que está falando ou não.

A primeira é “quanto dos 51 bilhões de toneladas de emissões anuais estará sendo resolvido pela mudança proposta?”. Muita gente perde muito tempo discutindo ações que não vão fazer a menor diferença nesse total. Mas como saber se faz diferença?

Bill Gates apresenta de uma forma simples as fontes de gas-estufa:

  • 31% produzindo coisas (making things)
  • 27% ligando coisas, ou seja, eletricidade (plugging in)
  • 19% criando animais e plantas (growing things)
  • 16% em transporte, incluindo aviões, caminhões e navios (getting around)
  • 7% em climatização: aquecimento, resfriamento e refrigeração (keeping warm and cool)

A segunda pergunta é “Qual é o seu plano para o cimento?”. Oi?!!!!! É que a fabricação de cimento e aço sozinha representa 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Entre eles, o maior problema é o cimento, pois, para produzi-lo, é necessário cálcio, que é obtido a partir da queima de calcário. Dessa queima resultam as mesmas quantidades de cálcio e CO2, um dos principais gases de efeito estufa.

E, até agora, ninguém conhece outra maneira de produzir cimento. E sem cimento não existe concreto e, sem ele, não existem pontes, nem estradas, nem novos prédios.

A terceira pergunta é “quanta energia isso gera?”. Essa parte me deu um entendimento simples sobre consumo de energia.

Um kilowatt é suficiente para abastecer uma casa média norteamericana; 1 megawatt abastece uma cidade pequena; 1 gigawatt abastece uma cidade média (12 gigawatts abastecem Nova Iorque, já Tóquio precisa de 23 gigawatts, chegando a 50 no pico, no verão); 1.000 gigawatts ou 1 terawatt é o suficiente para abastecer os Estados Unidos; e para abastecer o mundo inteiro são necessários 5 terawatts.

A quarta pergunta é “de quanto espaço você precisa para produzir essa quantidade de energia?”. Aqui você vai começar a entender por que eu gosto da energia nuclear.

Enquanto em um metro quadrado, o vento (energia eólica) produz entre 1 e 2 watts, no mesmo espaço é possível gerar de 500 a 1.000 watts se a energia for nuclear. Com combustíveis fósseis, no mesmo espaço, é produzida ainda mais energia: de 500 a 10.000 watts.

Finalmente, a quinta pergunta é “quanto isso vai custar?”. O motivo é simples: o ser humano emite tanto CO2 porque a energia e os produtos advindos de combustíveis fósseis são baratos. Para que mais pessoas em muitos países possam consumir energia e adotar produtos que não emitem CO2, eles precisam ser baratos o suficiente para incentivar a mudança.

Pragmatismo

Bill Gates não perde tempo dizendo que devemos viajar menos e parar de usar ar-condicionado. Ele vai direto para propostas de como fazer as mesmas coisas emitindo menos gases de efeito estufa.

Ele realisticamente diz que energias como solar e eólica são “limpas”, mas não suficientes, porque sol e vento não estão disponíveis 24 horas por dia, 365 dias por ano. E vai além, explicando o que teríamos que fazer para armazená-las e transportá-las, quanto isso custaria, o que já está sendo feito a esse respeito e quais são as limitações.

Também posiciona-se claramente a favor da energia nuclear. Ele diz que ela é “a única fonte livre de carbono que produz energia dia e noite, independentemente da estação, praticamente em qualquer lugar e em grande escala”.

E admite que talvez não sejamos capazes de nos livrar totalmente das energias fósseis, apresentando duas alternativas para reduzir o CO2 lançado na atmosfera: Point Capture e Direct Air Capture (DAC).

Point Capture é feito por meio da instalação de equipamentos especiais nas plantas de produção de energia fóssil, que capturam o CO2 imediatamente após sua produção. Isso já existe há décadas, mas é caro, difícil de operar e não há incentivo de qualquer tipo para sua instalação.

Direct Air Capture é uma tecnologia que captura CO2 do ar em qualquer lugar, mas ela ainda é extremamente cara e pouco eficiente.

E não, não adianta plantar árvores para retirar o CO2 da atmosfera: seria necessário cobrir de árvores 200 mil metros quadrados em uma área tropical para absorver as emissões de apenas um norteamericano médio ao longo de sua vida. Se considerarmos toda a população dos Estados Unidos, isso significaria plantar árvores em uma área oito vezes maior do que o Brasil.

Em relação ao transporte, ele explica que 49% das emissões vem de transporte de passageiros. Reduzi-las depende da substituição dos veículos movidos a gasolina e diesel por elétricos e, para que isso aconteça massivamente em muitos países é necessário reduzir os custos de possuir e manter um carro elétrico.

Biocombustíveis, como o álcool produzido no Brasil a partir da cana-de-açúcar, também ajudam, mas apenas em parte. Produzir as plantas que são necessárias para sua produção emite CO2 e ocupa bastante espaço. Outra opção são os combustíveis elétricos (electrofuels), gerados por eletricidade a partir de água e CO2, mas eles ainda são muito caros.

Biocombustíveis e combustíveis elétricos também são as melhores opções disponíveis para aviões e navios, mas sua implementação em larga escala só acontecerá quando o preço baixar.

Até que tudo isso seja possível, ele diz que precisamos nos adaptar a um mundo mais quente, que vai impactar principalmente as populações mais pobres. E que o maior foco deve ser em ajudar os pequenos fazendeiros por meio do desenvolvimento de sementes e animais resistentes às novas condições do clima e do solo.

Ele fala bastante do excelente trabalho nesse sentido que vem sendo feito pelo CGIAR (Consultative Group for International Agricultural Research), a maior rede pública de pesquisa e inovação agrária.

E considera o que pode ser feito em um cenário extremo, como a possibilidade levantada por alguns cientistas de erupção de estruturas cristalinas do solo marinho, que possuem grande quantidade de metano, e que causaria um aumento drástico e repentino da temperatura.

Em um caso extremo como esse, a saída estaria na geo-engenharia ou engenharia climática, que se propõe a fazer mudanças temporárias nos oceanos e na atmosfera para baixar a temperatura do planeta. A ideia básica é reduzir a porcentagem de luz solar atingindo a atmosfera terrestre com técnicas como alteração das nuvens.

Ele também diz que os governos tem um papel super importante em tudo isso, financiando a pesquisa em setores que ainda não são lucrativos o suficiente para atrair investimento privado, dando incentivos fiscais a empresas que estão investindo em tecnologias limpas, criando políticas públicas que promovam sua utilização e apoiando áreas que sofrerão com essa transição (como regiões que dependem da indústria petrolífera).

E encerra o livro apresentando um plano pra chegar a emissões zero em 2050, em que apresenta objetivos, o papel do governo em vários níveis e o que cada um de nós pode fazer como cidadão e consumidor. Gostei da ousadia.

O que eu não gostei

Parem de dizer que o problema são as vacas! Ainda mais que agora eu sei que todo o metano que elas produzem corresponde a apenas 4% das emissões globais (2 bilhões de toneladas de CO2 por ano) e que é possível reduzir esse número por meio do aumento da produtividade e melhora da sua alimentação.

Pelo menos Bill Gates admite que a carne tem um papel muito importante na alimentação humana e na cultura de vários povos e, apesar de promover sua substituição por carne artificial, não propõe um mundo sem churrasco.

Sobre carne artificial, aprendi que, além da carne feita a base de plantas que já existe por aí, existe também criação de carne de verdade em laboratório.

Esse produto, que vem sendo desenvolvido por algumas dezenas de start-ups e deve chegar às prateleiras em alguns anos, está sendo chamado de carne a base de células (cell based meat), carne cultivada (cultivated meat) ou carne limpa (clean meat).

Conclusão

Valeu muito a pena ter lido esse livro.

Embora eu ainda não esteja convencida de que a redução de nossas emissões de CO2 vai fazer alguma diferença para a temperatura do planeta, é bom saber que a geoengenharia tem um plano para situações extremas e que organizações como o CGIAR tem desenvolvido soluções para auxiliar as populações mais vulneráveis a lidar com a mudança climática.

Também foi interessante ler os muitos exemplos de inovação tecnológica apresentados no livro, do armazenamento de energia à produção de carne em laboratório, e refletir sobre a gigante mudança no mercado que já começou (e tende a aumentar) como decorrência da ideia de que a atividade humana altera a temperatura do planeta.