A Grécia é um dos principais destinos turísticos da Europa. E quem vai até lá normalmente não sabe, mas já está na Península Balcânica.

A área montanhosa tem um litoral espetacular que, além da Grécia, estende-se por Albânia, Montenegro e Croácia.

Essa região tem uma história riquíssima: é ocupada há milhares de anos e foi o ponto de encontro de diferentes civilizações, que viveram ora em paz ora em guerra, devido a suas múltiplas diferenças, que incluem religião, idioma e etnia.

Conhecer os Balcãs exige tempo. Tem muita coisa linda para ver por lá e tanta, tanta história.

Eu estou indo aos poucos. Estive na Grécia em 2018 e na Croácia em 2019. Mas, nesse post, não vou falar dessas viagens.

Vou te contar a história da Península Balcânica, para você entender um pouco sobre aquela região tão linda, mas tão confusa e tão desconhecida para nós.

Vou te contar sobre os gregos, romanos, eslavos, búlgaros e otomanos que viveram por lá e como eles ainda estão presentes na cultura da região.

Sobre como as religiões católica romana, ortodoxa e muçulmana até hoje são ponto-chave para entender os Balcãs.

Sobre o episódio ocorrido na península que deu origem à I Guerra Mundial: o assassinato do arquiduque austríaco Franz Ferdinand.

E sobre a ex-Iugoslávia, tão falada nas décadas de 1980 e 90, quando dissolveu-se, dando origem a vários novos países.

Vai ser uma rica viagem! Mas se você quiser ir direto para os posts que escrevi sobre a Grécia, clique aqui. Os posts sobre a Croácia vem em seguida.

Pré-história: Ilírios e Trácios

A Península Balcânica é povoada há dez mil anos. A civilização grega, há pouco mais de dois mil anos atrás, classificava as tribos que viviam ao norte da Grécia em dois grupos.

Os povos que viviam no lado oeste, entre as montanhas e o mar, eram chamados de Ilírios. Já os povos que viviam no leste, em direção à Turquia, eram chamados de Trácios.

Eles organizavam-se em tribos, praticamente sem ligações entre elas. Até que chegaram os romanos.

Império Romano por 600 anos

Eles começaram ocupando os territórios dos Ilírios, no século III AC. Em 300 anos conquistaram toda a Península.

Aqui tem um mapa que mostra todas as províncias romanas no auge do Império. Você vai ver que os Balcãs estavam divididos, grosso modo, em sete províncias: Achala, Macedônia, Trácia, Moesia, Dacia, Dalmatia e Pannonia.

Naquela época o Império Romano estava tão grande que, no ano 285, o Imperador Diocleciano decidiu dividi-lo em dois.

As províncias do leste do império, incluindo os Balcãs, passaram a ser governadas por ele a partir de Bizâncio (atual capital da Turquia, Istambul, que também já foi chamada de Constantinopla).

Cem anos mais tarde, no ano 391, o Cristianismo passou a ser a religião oficial do Império Romano.

Pouco depois, o Império seria definitivamente dividido em dois, Romano do Ocidente e Romano do Oriente. Esse último, que abrangia a Península Balcânica, sobreviveria até 1453 e ficou conhecido como Império Bizantino.

A chegada dos eslavos

Com o enfraquecimento do Império Romano, os Balcãs passaram a ser atacados por povos bárbaros: Álanos, Godos e Hunos.

Mas foram povos Eslavos que conseguiram estabelecer-se na região, a partir do século VI. Eles são mencionados pela primeira vez em documentos do Império Bizantino dessa época.

Os Eslavos eram povos que tinham em comum o idioma, e acredita-se que tenham vindo inicialmente da região onde hoje é a Polônia.

Os eslavos que ocuparam a Península Balcânica dividiam-se em quatro grupos principais: eslovenos, croatas, sérvios e búlgaros.

A população que vivia nos Balcãs já era cristã desde o tempo dos romanos. Na Grécia era praticado o catolicismo ortodoxo, enquanto que em outras regiões seguia-se o catolicismo romano.

Os Eslavos dividiram-se: Eslovenos e Croatas adotaram o catolicismo romano.

Sérvios e Búlgaros, no séc IX, tornaram- se católicos ortodoxos.

Os romenos, povo não eslavo que ocupava o nordeste da Península, também tornaram-se  ortodoxos.

Começava assim a divisão religiosa nos Balcãs que marcaria sua história a partir de então.

Origens da Bulgária

Os búlgaros eram eslavos que vinham do norte do Mar Negro. Eles estabeleceram-se na região que havia sido ocupada pelos trácios (dos quais ainda podemos ver Nessebar, uma antiga cidade hoje considerada Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO).

Na época dos romanos, esse território correspondia às províncias Moésia e Trácia. Por ser o principal caminho para o Oriente Médio, a região está ainda repleta de ruínas dessa época.

Logo que chegaram, os búlgaros conseguiram estabelecer uma confederação de tribos, chamada de Grande Bulgária. Isso ainda no século VII, o que faz da Bulgária uma das nações mais antigas da Europa.

Eles expandiram sua presença até a Macedônia e partes do que é hoje Sérvia e Croácia. Mas acabaram sendo assimilados, adotando, inclusive, o catolicismo como religião.

Os búlgaros conseguiram manter sua independência frente ao Império Bizantino, mas ataques dos Mongóis no século XIII levaram ao declínio do reino, que parecia que ia desaparecer para sempre na época em que os Turcos-Otomanos conquistaram os Balcãs.

Origens da Sérvia

Um primeiro principado sérvio existiu por um breve período no século IX. Mas for a partir do século XII que surgiu uma organização mais permanente, que foi reconhecida pelo Papa Honório III como “Reino da Sérvia, Dalmácia e Bósnia”.

Por 200 anos, sob o governo da dinastia Nemanjić, e contando com o enfraquecimento do Império Bizantino em função das Cruzadas, esse reino expandiu-se pelos Balcãs, controlando também o que é hoje Macedônia, Albânia, Montenegro e parte da Bósnia.

Mas isso também acaba quando os turcos otomanos chegam na região, no final do século XIV.

Submissão dos eslavos católicos romanos à Hungria

Enquanto os eslavos ortodoxos organizavam-se em dois grandes reinos para lutar contra o Império Bizantino, os eslavos católicos romanos tinham outros problemas: húngaros e, posteriormente, mongóis.

Os croatas, que haviam estabelecido seu próprio reino no século X,  aceitaram ser parte do Reino da Hungria em 1102.

Em 1195, o rei húngaro Béla III expandiu seu controle para sudoeste, incorporando Bósnia e Dalmácia.

A conquista dos Balcãs pelos Turcos-Otomanos

No século XV, os turcos otomanos conquistaram a península inteira, subjugando católicos romanos e ortodoxos.

As únicas exceções foram a República de Ragusa, hoje cidade de Dubrovnik, na Croácia, e Montenegro, que era montanhoso demais para ser completamente controlado.

Na sua expansão, os Otomanos conquistaram também a Hungria (1526), que só perderiam para a Áustria quase dois séculos depois.

Com os turcos, entrava em cena uma nova religião, a muçulmana.

O Império Turco-Otomano até tolerava outras religiões, que viviam em suas próprias comunidades religiosas, chamadas millets.

Mas apropriou-se das terras da antiga nobreza. Exceto na Bósnia e na Albânia: lá grande parte dos nobres converteu-se ao Islã para manter sua posição na sociedade.

Decadência do Império Turco-Otomano e os nacionalismos do século XIX

Foram os Habsburgos austríacos que, ao longo dos séculos, conseguiram tomar mais territórios dos muçulmanos na região.

Eles conquistaram o leste e o norte dos Balcãs, incluindo Hungria, Croacia-Eslavona e Transilvânia.

No século XIX, o nacionalismo baseado em grupo étnico e religioso cresceu. Para se tornar independente do Império Otomano, que, apesar de enfraquecido, ainda existia, os vários grupos étnicos dependiam de ajuda externa.

A Sérvia, depois da submissão aos turcos por séculos, graças à ajuda russa, tornou-se um principado autônomo em 1804.

Em 1821, a Grécia começou sua guerra de independência contra o Império Otomano, resultando na formação de um reino independente em 1832.

O surgimento da Romênia foi favorecido pelas guerras que levaram à formação da Alemanha e da Itália. Ela passa a ser uma nação em 1859, quando a Moldávia e a Valáquia separaram-se do Império Otomomano e passaram a usar o alfabeto latino.

Também com apoio da Rússia, a Bulgária conseguiu, em 1878, autonomia em relação aos turcos, com a formação de um principado autônomo.

O nacionalismo búlgaro havia sobrevivido ao controle otomano. A manutenção de sua cultura e religião ao longo dos séculos, possibilitou o ressurgimento da identidade nacional.

Montenegro tem uma história antiga de independência. Ele era chamado de Zeta quando era uma das regiões administrativas da Sérvia medieval.

O termo Montenegro passou a ser utilizado no século XV. Graças à sua geografia montanhosa, população rebelde e proteção de Veneza, o pequeno país conseguiu manter-se independente ao longo dos séculos.

A Albânia havia tornado-se independente dos Turcos em 1912, mas seus vizinhos gregos, sérvios e montenegrinos queriam dividir o território entre si.

Com intervenção das potências europeias, a Albania teve sua independencia reconhecida, mas perdeu metade de seu território e população: grande parte do Kosovo passou a pertencer à Sérvia e, no sul, uma vasta região passou a pertencer à Grécia.

Em resumo, era assim que a Península Balcânica se encontrava pouco antes do começo da I Guerra Mundial.

balkans_1914Fonte: Constitutional Rights Foundation

I Guerra Mundial

Em 1914, uma época de ânimos acirrados entre os grandes reinos europeus, o herdeiro do Império Austro-Húngaro, Arquiduque Franz Ferndinand, foi assassinado na Bósnia.

O assassino era um participante do grupo sérvio Mão Negra. Naquela época, Sérvia e Montenegro já eram independentes, mas outros povos eslavos do sul (eslovenos, croatas e bósnios) estavam submetidos à Áustria.

O Mão Negra buscava promover a união e independência desses povos.

Embora a situação nos Balcãs tenha sido apenas o estopim para a tão ansiada guerra entre as potências, a região foi altamente impactada.

Uma das consequências mais importantes da guerra foi o fim dos impérios Austro-Húngaro e Otomano, as duas potências que, ao longo dos últimos séculos, tinham exercido mais influência sobre os Balcãs.

O futuro das regiões controladas pelos impérios otomano e austríaco, incluindo Croácia-Eslavona, Dalmácia, Bósnia, Eslovênia e Transilvânia, teve que ser rapidamente decidido na Conferência de Paz de Paris (1919-1920).

Foram formados dois grandes reinos: o da Romênia (cuja população e território dobrou) e o dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que incorporou Montenegro e os territórios onde os outros eslavos do sul (eslovenos, croatas e bósnios) viviam.

As potências vencedoras da guerra não estavam preocupadas com a mistura de povos distintos dentro dessas duas grandes nações: o que lhes interessava era conter a Rússia e a Hungria, já sob impacto do movimento bolchevique.

Os Balcãs depois da I Guerra Mundial

Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos e seu Estado sucessor: Iugoslávia

Enquantos os sérvios, que já estavam organizados como nação anteriormente, queriam que o reino fosse um estado centralizado, que englobasse todas as minorias sérvias da região, os croatas, concentrados em uma região menor, defendiam um modelo federativo.

Venceu o modelo centralizado sob controle dos sérvios, institucionalizado pela primeira constituição do novo reino, já em 1921. Em 1929 o nome do reino foi mudado para Iugoslávia.

Mas em 1941 a Primeira Iugoslávia desintegra-se, quando os exércitos de Hitler marcham sobre a região, alcançando, inclusive, a Grécia, no extremo sul dos Balcãs.

De Hitler, só escapou a Croácia, que, nessa época, tornou-se uma nação independente.

A Croácia aproveitou o momento para livrar-se das minorias: não só judeus, mas, também, sérvios.

Acredita-se que, dos sérvios, um terço tenha se convertido ao catolicismo romano, um terço tenha sido expulso, e, os outros, exterminados.

O fim da guerra possibilitou a reconstituição da Iugoslávia centralizada e sob governo sérvio. Dessa vez, organizada por Tito, o líder socialista que estabeleceu o país sob a forma que ele manteria até 1991.

Em termos de território, o país tornou-se maior: agora faziam parte dele também a região de Ístria, conquistada da Itália, e a Dalmácia.

O antigo reino foi substituído por seis repúblicas (Croácia, Eslovênia, Macedônia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Sérvia) e duas províncias autônomas (Kosovo e Voivodina), para atender a necessidade das minorias albanesas e húngaras presentes na região.

O modelo, centralizado mas com crescente autonomia das regiões, funcionou até a morte de Tito, em 1980. Mas os problemas econômicos dessa década levaram à desintegração da Segunda Iugoslávia.

Em 1991, Eslovênia, Croácia e Macedônia declaram-se independentes. Os muçulmanos da Bósnia começaram a lutar por independência em 1992. Começa a guerra civil, com rebeliões de minorias sérvias que viviam na Bósnia e na Croácia.

Nesse contexto, Sérvia e Montenegro criam uma nova federação, que seria a terceira e última Iugoslávia.

Um novo conflito explode em 1998, quando as minorias albanesas do Kosovo também decidem tornar-se independentes.

A última Iugoslávia deixa de existir em 2003, quando a federação passa oficialmente a ser um novo país chamado Sérvia e Montenegro.

Em 2006, por meio de um plebiscito, Montenegro decidiu separar-se da Sérvia, tornando-se um país independente.

Reino da Romênia

O segundo novo reino criado pela Conferência de Paris, no final da I Guerra Mundial, dobrou o tamanho e a população da Romênia pré-guerra.

A reestruturação do pós guerra fez com que a Romênia incorporasse muitas minorias, que passaram a representar quase 30% da população. Os maiores grupos eram minorias húngaras e judias.

Ocupada pelo Exército Vermelho no final da II Guerra Mundial, a Romênia foi um país comunista até 1989. Em 1991 foi aprovada uma nova constituição, que transformou o país em uma república democrática.

Atualmente também compõem a população do país os romas, grupo étnico nômade, surgido na Índia e posteriormente espalhado pelo mundo, popularmente chamado de cigano.

Albânia, Bulgária e Grécia

Albânia e Bulgária mantiveram praticamente as mesmas fronteiras do período pré-guerra. Já as fronteiras da Grécia expandiram-se para o leste, fazendo praticamente todo o contorno do mar Egeu.

No pós II Guerra Mundial, Albânia e Bulgária ficaram sob influência soviética.

A Bulgária tinha muitas minorias, que sofreram bastante nesse período. Os ciganos (povos romas), pomaks (muçulmanos que falavam búlgaro) e turcos foram forçados a adotar nomes búlgaros. E, em 1989, 300 mil turcos foram forçados a deixar o país. Muitos ciganos foram embora com eles.

A Albânia afastou-se da URSS na década de 1960, quando aproximou-se de seu novo rival, a China.

A Grécia foi o único país que ficou fora da influência comunista: Churchill e Stalin concordaram que deixariam a Grécia decidir seu próprio rumo. A II Guerra Mundial foi seguida de uma guerra civil que se estendeu até 1949, quando os comunistas foram derrotados.

Sendo o único país sob influência ocidental nos Balcãs, a Grécia passou a ser parte da OTAN em 1952 e juntou-se a União Europeia nos seus primórdios, em 1981, quando ela era ainda apenas a Comunidade Europeia.

Os Balcãs na atualidade

Bulgária, Croácia, Grécia, Romênia e Eslovênia parecem estáveis na sua posição “ocidental”: todos esses países são membros da União Europeia.

Já Sérvia, Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Macedônia e Albânia, que ainda superam seus traumas das guerras recentes, esperam sua vez para entrar na UE. Mas suas relações com Turquia e Rússia podem impedir que isso aconteça tão cedo.

O turismo, porém, é possível, super interessante e cresce a cada ano. Quer saber por quê? O blog SofiaAdventures dá 25 motivos para ir até a região. E o blog ChasingTheDonkey fala de vários dos países, dando dicas sobre como ir e o quê conhecer em cada um deles.

Para ler os meus posts sobre a Grécia, clique aqui.