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No post anterior a gente falou sobre a ilha de Creta e sobre o desenvolvimento da primeira civilização europeia, em torno do ano 2000 A.C.. Nesse, vamos falar da civilização micênica, que se desenvolveu em seguida, na parte continental da Grécia. Soa estranho e pouco familiar? Não se engane: esses são os gregos que venceram a famosa Guerra de Troia.  😉

A civilização micênica

Enquanto Creta ainda controlava o mar Egeu, chegavam à parte continental da Grécia, os aqueus, um povo indo-europeu que vinha da região dos Balcãs.

Eles estabeleceram-se na península do Peloponeso, em torno de 1600 A.C.. Sua principal cidade era Micenas, por isso eles ficaram conhecidos como micênicos. Outras cidades importantes naquela época eram Argos e Tirinto.

Os micênicos eram guerreiros. Seus palácios e cidades eram murados e isso pode ser visto ainda nas ruínas na região do Peloponeso, principalmente na própria cidade de Micenas.

Além de controlar o continente, os micênicos expandiram seu controle para o mar. E, finalmente, conquistaram a ilha de Creta, em torno de 1450 A.C..

Seu legado mais importante é a escrita Linear B, que é considerada a origem do idioma grego. Ela tem 90 símbolos silábicos, em geral começando com vogais ou apenas uma consoante, e foi decifrada em 1952.

Seu rei mais famoso é o lendário Agamemnon, que, em torno de 1250 A.C.., teria liderado os gregos na vitoriosa campanha contra Troia.

Por isso, quando uma impressionante máscara mortuária de ouro foi encontrada nas escavações arqueológicas em Micenas, ela foi batizada de Máscara de Agamemnon. Ela está hoje no Museu Nacional Arqueológico de Atenas.

Para quem tem interesse nos achados arqueológicos da região, sugiro esse post. Ela fala sobre a máscara e outros itens encontrados na mesma tumba.

Essa civilização desapereceu em torno do ano 1100 A.C.. Não se sabe exatamente como, mas sabe-se que, com seu desaparecimento, a Grécia passou por 300 anos de “escuridão”: desapareceram as cidades, abandonou-se a escrita. Praticamente não há registros sobre esse período histórico.

A tese mais aceita para o desaparecimento dos micênicos é a de que, em um primeiro momento, terremotos destruíram e empobreceram a região.

Quando eles já estavam enfraquecidos, suas terras foram ocupadas pelos dórios, um outro povo indo-europeu, que tinha armas de ferro, superiores às armas de bronze dos micênicos.

A população das cidades teria fugido para o campo e para as Cíclades, grupo de cerca de 200 ilhas que inclui as hoje famosas Mikonos e Santorini.

Com o fim das cidades, formaram-se os genos, pequenas comunidades agrícolas e patriarcais. Esses pequenos grupos passaram a acreditar que descendiam diretamente de um deus ou herói, e essas histórias foram passadas de geração em geração.

Até cerca do ano 800 A.C., quando Homero e outros poetas transformaram essas histórias em versos. Foi assim que ficamos sabendo sobre a Guerra de Troia.

Mas vamos por partes. Vamos conhecer antes o mito sobre o surgimento da civilização micênica. Tudo teria começado com o lendário Perseu.

O mito fundador da civilização micênica

Conta a lenda que, antes da fundação de Micenas, ja existia a cidade de Argos. Seu rei era Acrisius. Ele tinha uma filha chamada Danae.

Um dia um oráculo disse para Acrisius que ele teria um neto e seria morto por ele. O rei não pensou duas vezes: prendeu sua filha em uma camêra subterrânea, para que ela nunca tivesse o bebê.

Mas você já sabe como a mitologia funciona: um deus sempre vai lá e apronta. E foi assim que Danae engravidou de ninguém menos que Zeus, o deus dos deuses.

Quando Acrisius descobriu, jogou mãe e bebê ao mar, dentro de uma pequena caixa. Claro que eles foram salvos: o bebê, que se chamaria Perseu, foi criado por Danae, com a ajuda da família de pescadores que os encontrou.

Perseu desde cedo já demonstrou ser um semi-deus: em sua primeira aventura ele matou a Medusa. Ela tinha cobras no lugar dos cabelos, e quem olhava para ela transformava-se em pedra.

Ele conseguiu essa proeza com a ajuda dos deuses, que lhe deram um escudo refletor, uma espada curva, botas com asas e o capacete da invisibilidade.

Quando ele voltava para casa, salvou Andrômeda, princesa da Etiópia, que estava prestes a ser devorada por um monstro do mar. Depois, juntos, eles teriam fundado a cidade de Micenas.

Perseu e Andrômeda tiveram muitos filhos. E foram seus descendentes que, a partir da cidade de Micenas, desenvolveram a grande civilização micênica.

É desses gregos que Homero fala em “A Ilíada”. E, por isso, eles são chamados nessa obra não de gregos, mas de Argives (de Argos), Danaids (um outro termo que também se refere a quem vem de Argos) e Aqueus (nome do povo indo-europeu que fundou as cidades da região, incluindo Micenas e Argos).

A Guerra de Troia

Mas afinal, o que sabemos sobre Troia? Contam os poetas que era uma vez uma cidade protegida por muros intransponíveis, construídos pelos deuses Apolo e Poseidon. Ela ficava na costa oeste do Mediterrâneo, onde fica hoje a Turquia.

Um de seus mais longevos governantes teria sido Priam. Ele teve mais de 50 filhos. O mais bravo e, por isso, comandante de seus exércitos, era Heitor. Um dos mais azarados era Alexander.

Antes de Alexander nascer, um oráculo avisou Priam que, se esse bebê crescesse, ele provocaria a destruição da cidade. Por isso, quando ele nasceu, Priam pediu que um de seus homens de confiança o matasse.

Ao invés de matá-lo, o homem criou Alexander como se fosse seu filho. Até lhe deu outro nome, Paris. Ele cresceu achando que era um pastor de ovelhas.

Um dia, Paris foi surpreendido com um encontro com três deusas: Afrodite, Hera e Atenas. As três estavam brigando há anos para saber quem era a mais bela, em função de uma intriga da deusa Eris.

Zeus, cansado da disputa e sem querer se envolver, resolveu que era Paris quem iria decidir.

Mas por que Paris?!! Porque tudo já estava escrito: na mitologia grega existem três deusas chamadas de “Três Destinos” (Three Fates), que já haviam determinado que Troia seria destruída.

A intriga de Eris era apenas o fato desencadeador do que estava por vir. E Paris, como havia previsto o oráculo, seria o agente da destruição.

Quando as deusas encontram Paris, todas tentam suborná-lo.

Hera prometeu que, se ele lhe escolhesse como a mais bela, ela faria dele rei de toda a Ásia e o homem mais rico do mundo.

Já a deusa Atenas disse-lhe que, se fosse a escolhida, faria dele não apenas o maior guerreiro como também o homem mais sábio de todos.

Mas foi Afrodite que o convenceu: a deusa do amor lhe prometeu a mulher mais linda de todas, Helena.

Ela era filha da princesa Leda, famosa por sua beleza e casada com Tyndareos, rei de Esparta. Mas Tyndareos não era o pai de Helena. Zeus, o deus dos deuses, também havia se apaixonado por Leda. E transformou-se em um cisne branco para seduzi-la. Foi assim que Helena nasceu de um ovo.

O rei de Esparta, surpreso, perguntou aos oráculos o que fazer. Eles lhe recomendaram que cuidasse com todo o amor dela e que tivesse muito cuidado ao escolher seu marido: sua beleza estonteante provocaria uma grande guerra.

Destino

Como eu já tinha dito antes, Paris aceitou a oferta de Afrodite: escolheu-a como a mais bela das deusas em troca do amor de Helena.

O problema é que, a essas alturas, Helena já estava casada. Seu marido era Menelau. E ele era irmão de ninguém menos que Agamemnon, o grande rei de Micenas, reconhecido como líder pelos reis de todas as outras cidades.

Mas Afrodite disse que daria um jeito nisso. E deu mesmo.

Pouco tempo depois do encontro com as deusas, Paris acabou sendo descoberto por seu pai, Priam, rei de Troia. Que o reconhece como príncipe e o leva para o palácio para assumir seu lugar na família.

Paris logo conhece Menelau, que estava de passagem por Troia. E aproveita- se da situação para organizar uma “visita” a Esparta.

Assim que Helena vê Paris, ela é flechada por Cupido, deus do amor, à pedido de Afrodite, que, assim, cumpria sua promessa. Apaixonada, Helena foge para Troia, acompanhando Paris.

O rei de Esparta ficou furioso e pediu ajuda para o poderoso irmão Agamemnon. Juntos, eles convenceram os líderes de outras 30 regiões da Grécia a ir com eles a Troia. Eles iriam buscam Helena e saquear a cidade.

E foi assim que os gregos chegaram a Troia com uma poderosa frota de 1.200 barcos. Eles cercaram a cidade por dez anos.

Entre cercos e batalhas, duelos e intervenções divinas, venceram os gregos. Mas eles nunca conseguiram derrubar os muros construídos por Apolo e Poseidon.

Só conseguiram entrar na cidade porque o esperto Ulisses teve uma ideia brilhante: construir um cavalo de madeira, onde alguns gregos se esconderam. Enquanto isso, os outros gregos fingiam ir embora.

Os ingênuos troianos levaram o cavalo para dentro da cidade e, foi assim, que a profecia do oráculo se cumpriu. Troia foi conquistada e destruída.

E é por isso que, até hoje, usamos a expressão “presente de grego” como sinônimo de armadilha, presente com segundas intenções.

E que o termo “cavalo de Troia”, no jargão de tecnologia, foi adotado  como nome para um malware que se disfarça de software legítimo e, discretamete, abre brechas de segurança em dados e dispositivos.

Sobre Aquiles

Não dá para falar da guerra de Troia sem falar do maior de seus heróis, Aquiles. Ele era filho da deusa do mar, Thetis.

Quando nasceu, foi mergulhado por ela nas águas do rio subterrâneo Styx. Isso fez com que seu corpo ficasse à prova de ferimentos ou doenças – exceto pelo calcanhar, por onde ela o tinha segurado na hora do banho.

E foi uma flechada bem ali que o matou. É por isso que, até hoje, quando falamos do ponto fraco de alguém, nos referimos ao “calcanhar de Aquiles”.

Depois da guerra

Ulisses, o idealizador do cavalo, levou dez anos para chegar em casa. Seu retorno é contado no outro grande poema épico de Homero, A Odisseia.

Helena, ora, ora, foi perdoada por Menelau, que a levou de volta para Esparta. Dizem que viveram juntos até o fim de seus dias e, depois disso, foram enviados por Zeus para os Campos Elísios, que é o lugar para onde os grandes heróis vão depois da morte.

Agamemnon também conseguiu chegar em casa, mas foi imediatamente assassinado pelo amante de sua mulher, Clytemnestra.

Mas, afinal, Troia existiu?

Ficamos sabendo sobre Troia graças à literatura, mas escavações arqueológicas no último século parecem comprovar a existência da cidade.

Os primeiros relatos sobre Troia são do século VIII A.C.. A cidade aparece não só nos poemas de Homero (A Ilíada e A Odisseia), como também em outros da mesma época, conhecidos na literatura grega como o “Ciclo Épico”.

Aqui tem um artigo bem interessante sobre isso, com um resumo de A Ilíada e, também, algumas informações interessantes sobre Homero (que talvez nem tenha existido).

O fato é que todos os relatos indicam que Troia ficava na Turquia, ao sul do Estreito de Dardanelos. As escavações arqueológicas em busca da cidade começaram em 1870 e foram encontradas ruínas não só de uma, como de sete cidades, construídas uma em cima da outra.

Esse vídeo da Britannica (em inglês, 3 min) mostra que, com uso da tecnologia disponível hoje, é possível entender como a cidade era, dentro dos famosos intransponíveis muros.

Em relação à origem da cidade, uma das hipóteses é que ela tenha sido fundada por habitantes de Creta, que fugiam de um longo período de seca.

Quanto à destruição causada pelos gregos, é possível que ela tenha de fato acontecido. Uma das cidades (Troia VII a) foi destruída em torno de 1250 A.C.. Essa é a época em que os micênicos estavam expandindo seu controle sobre o mar Egeu. E, nas escavações na cidade, foram encontrados indícios de que ela tenha sido atacada, saqueada e incendiada por inimigos.

Conhecendo Micenas e o Peloponeso

Para quem está na Grécia, é fácil visitar a península do Peloponeso. Micenas fica a apenas 120 km de Atenas.

Há bastante para ver dos antigos micênicos por lá. Esse post do blog Fragata Surprise fala sobre como planejar uma visita ao sítio arqueológico, incluindo uma visita à antiga cidade murada e à Tumba de Agamemnon (também conhecida como “Tesouro de Atreu”).

Há vários outros lugares charmosos e interessantes no Peloponeso. Adoro os roteiros do Rick Steves e recomendo muito esse vídeo (em inglês, 25 min) para quem está planejando uma viagem à Grécia.

Algumas das sugestões são visitar Epidravos, onde fica o mais bem preservado antigo teatro grego, e Nafplio, cidade construída pelos venezianos quando eles controlavam o comércio no Mediterrâneo.

E, estando de carro pelo Peloponeso, por que não visitar Esparta? Especialmente para quem gosta de correr: todos os anos acontece lá um evento chamado Spartathlon, que recria a famosa corrida de Fidípedes, que correu de Atenas a Esparta em busca de ajuda quando os persas chegaram na Grécia por Maratona (mais sobre isso no próximo post!).

Trata-se de uma das mais árduas provas de longa distância do mundo: são 246 km, desde a base da Acrópole em Atenas, até a estátua de Leônidas em Esparta. Dura em torno de 20 horas e acontece sempre no final de setembro.

Aqui tem um post bem realista sobre a cidade, que, apesar de toda sua história, não tem ruínas tão impressionantes quanto as de Micenas e Atenas. Mas que, ainda assim, merece uma visita de quem é apaixonado pela Grécia Antiga. E que pode ver mais sobre a famosa Cidade-Estado no Museu Arqueológico da cidade.

Ali perto fica Mystras, uma cidade que se desenvolveu ao redor de uma fortaleza construída em 1249. Poucos anos depois ela foi controlada pelos bizantinos. Mais tarde ela seria ainda controlada por turcos e venezianos. A cidade foi abandonada no século XIX e hoje é considerada Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO.

Visitando Troia

As ruínas da antiga cidade na Turquia, também consideradas Patrimônio Histórico da Humanidade, são visitadas anualmente por cerca de 500 mil pessoas.

Não é fácil chegar lá, esse post do Fragata Surprise conta sobre essa aventura e dá dicas práticas sobre o passeio.

Para saber mais

Quer ver um vídeo engraçadinho sobre a história de Perseu, o mito fundador de Micenas? É so clicar aqui (em inglês, 4 min).

Sobre Micenas e a Guerra de Troia, além dos links indicados no texto, minha principal fonte foi o livro “Mitologia Grega: A Ilíada”. Recomendo muito para quem quer ler uma versão simplificada do poema de Homero.

livro a iliada

Também encontrei no YouTube esse vídeo ótimo (em inglês, 4 minutos), que faz um resumo do período entre 2.000 A.C. e 800 A.C., mostrando as principais diferenças entre as várias fases e comparando a civilização menóica (de Creta, assunto do post anterior) com a micênica.

Para um resumo diferente sobre o período desse post, indico também essa aula de história (em português, 16 min), do Brasil Escola.

E agora?

No próximo post da série vamos falar sobre a fase mais conhecida da história da Grécia, o período que vai do século VIII ao século IV A.C..

São dessa época as guerras dos gregos contra os persas, as disputas entre Atenas e Esparta, o surgimento e desenvolvimento da democracia e da filosofia.

E, junto, eu vou te contar o que vi e aprendi durante minha estada de quatro dias em Atenas.

Até breve!