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Eles habitam o imaginário de muita gente, seja pela pela história do Rei Artur e da Távola Redonda, pelo livro As Brumas de Avalon, pelos símbolos de sua mitologia ou pelo estilo de música.

Todas essas coisas sempre me fizeram associar os celtas à Grã-Bretanha, mais especialmente à Irlanda. Até o dia em que fui a Dublin e, dos celtas, encontrei apenas 4 páginas em um livro de história para crianças e objetos decorativos em lojas de souvenir.

Foi aí que percebi o quanto eu não sabia nada sobre eles. E foi enquanto aprendia que escrevi esse post.

Uma cultura comum

Vamos começar com a visão mais tradicional, com que a maioria dos estudiosos concorda.

Segundo eles, o que conhecemos hoje como “cultura celta” surgiu no coração da Europa, ao norte do rio Danúbio, em torno do século XIII A.C..

Curso do rio Danúbio. Fonte: Saber és Practico

Esses primeiros celtas ficaram conhecidos como “Urnfield People” (literalmente: pessoas dos campos de urnas), porque seus mortos eram cremados e enterrados em urnas de cerâmica.

Vários desses grupos falavam a mesma língua. Variações dela são faladas ainda hoje, em regiões da Grã-Bretanha e no norte da França.

Eles também tinham em comum um estilo artístico bastante peculiar, caracterizado por formas e linhas fluidas. Esse artigo do Museu Britânico e esse outro sobre uma exposição no Museu Nacional da Escócia falam mais sobre isso.

Sua religião era politeísta e seus líderes espirituais eram chamados Druidas.

Esse grupo cultural passou pela transição do bronze para o ferro (de 800 A.C. a 500 A.C.).

Os celtas dessa nova fase são identificados hoje pelos estudiosos como “cultura de Hallstatt”.

O nome está associado a um vilarejo na Áustria, onde foi encontrado um grande cemitério, um dos principais achados arqueológicos relacionados aos celtas.

O declínio dessa cultura é seguido pelo florescimento da “cultura La Tène”, próxima fase de desenvolvimento dos celtas.

Nessa época, o território principal ocupado por esses povos foi a região chamada mais tarde pelos romanos de Gaul (Gália), que compreendia o que é hoje a França, a Bélgica, a Suíça, o norte da Itália e partes da Holanda e da Alemanha.

A prosperidade dessa região e os ataques de seus habitantes a gregos e romanos (os celtas saquearam Roma em 390 A.C., Delphi, na Grécia, em 279 A.C., e Roma novamente em 225 A.C.) fazem com que eles comecem a ser citados pela culturas mediterrâneas. É a partir daí que o termo “celta” aparece.

Seria só em 52 A.C. que os romanos conquistariam a Gália, quando  Júlio Cesar derrotou o grande chefe Vercingetorix, que já havia resistido a ataques de tribos germânicas.

Os gauleses foram popularizados pelo personagem de histórias em quadrinhos Asterix. Esse post fala sobre a relação da fantasia com a realidade.

A consequência das guerras no século I A.C. é a emigração das tribos celtas, que se esparramaram pelo continente, de Portugal à Turquia.

Isso inclui a Grã-Bretanha. Tribos celtas já vinham se estabelecendo por lá desde o século V A.C.. E esse movimento aumentou depois da expulsão dos celtas da Gália.

Com o passar do tempo, na medida em que os romanos vão expandindo seu território para a Grã-Bretanha, as tribos permanecem apenas nos extremos: Irlanda e norte da Escócia.

Embora influenciadas pelo modo de vida romano, essas áreas não foram conquistadas. Mas o termo celta cai em desuso.

Minha principal fonte para essa perspectiva da história vem desse artigo da Ancient History Encyclopedia.

Uma nova perspectiva: uma cultura Atlântica

Barry Cunliffe, um dos maiores arqueologistas da atualidade, é considerado uma autoridade no tema celtas. Em 1997 ele publicou o livro The Ancient Celts, fácil de ler, e que recomendo.

Em seus trabalhos mais recentes ele apresenta a tese de que a cultura celta surgiu na costa Atlântica, do sul de Portugal e Espanha até a Bélgica, incluindo Inglaterra e Irlanda.

Segundo ele, isso explicaria porque é nessas regiões que ainda são faladas as línguas de origem celta que sobreviveram: irlandês, gaélico escocês, gaélico Manx (falado na ilha de Man, no mar da Irlanda), bretão, galês e córnico (falado na Cornualha).

Para saber mais sobre isso, recomendo essa palestra dele disponível no YouTube,  chamada “Who were the Celts” (em inglês, 1h + perguntas e respostas). Ela aconteceu na Irlanda, talvez não por acaso, em um Saint Patrick’s Day.

Ressurgimento do termo Celtas

O termo celta foi deixado de lado, provavelmente em torno do século IV.. Ele só seria retomado 1500 anos depois, durante a Renascença. A publicação de antigos textos começava a tornar-se mais comum e, em 1511, foi publicado um escrito por Júlio César na época da ocupação da Gália, chamado “As Guerra Gaulesas” (The Gallic Wars).

Isso coincidiu com um momento em que os povos da Europa Ocidental tentavam explicar o começo de sua história.

Tem início a busca de antigas tradições, que teriam sido transmitidas oralmente, de geração em geração. E a invenção de outras tantas lendas e rituais.

Na França, em 1534, foi publicado o livro O Florescimento e a Antiguidade dos Gauleses (Les Fleurs et Antiquités des Gaules), que destacava as práticas e filosofias dos Druidas.

Um dos mitos que surge nessa época é a ideia de que os monumentos de pedra de Stonehenge e Avebury, no Reino Unido, seriam obra dos celtas. Ela foi propagada pelo livro História dos Templos dos Antigos Celtas (History of the Temples of the Ancient Celts), que o antiquário britânico William Stukeley começou a escrever em 1723.

Mas teorias respeitadas também surgiram. Talvez a mais importante delas seja a publicada em 1707 pelo linguista Edward Lhuyd.

Ele estava tentando explicar como a língua celta teria chegado à Grã-Bretanha. Sua conclusão foi que os celtas, que se sabia que haviam habitado o continente, teriam migrado para as ilhas levando o idioma.

Essa teoria foi aceita por 300 anos por linguistas e arqueologistas. E é ela que está sendo desafiada por Barry Cunliffe com sua teoria atlântica.

Hoje, 300 anos depois, o termo celta é utilizado para definir o conjunto de línguas, tradições e culturas da Irlanda, Escócia, País de Gales e Bretanha (noroeste da França).

Curiosidades

Pra terminar, vamos falar do rei Artur e da Távora Redonda. O lendário soberano teria vivido no século VI, quando os romanos já não estavam mais na Grã-Bretanha e a ameaça vinha das tribos germânicas (anglo-saxões).

Segundo a Britannica, a lenda possivelmente surgiu no país de Gales ou na parte norte da Inglaterra. Um dos personagens centrais da história é o mago Merlin, que corresponderia ao personagem Myrddin da mitologia celta.

Mas é difícil engolir essa história, né? Então aqui tem um artigo da BBC falando sobre o que aconteceu de verdade.

Em resumo, o primeiro texto em que o rei Artur aparece foi escrito no ano 830. A história foi recontada por Geoffrey de Monmouth no século XII. Essa versão, junto com outros textos posteriores, construíram a história como a conhecemos hoje. O artigo da BBC explica esses textos dentro de seu contexto histórico.

O livro “As Brumas de Avalon” também é sobre a história do rei Artur, mas pela perspectiva das mulheres. É uma história de magia e empoderamento feminino, que me encantou quando li, no começo da década de 1990.

Para concluir: para conhecer mais sobre os símbolos da mitologia celta que eu encontrei nas lojinhas de souvenir 🙂 é só espiar a foto de abertura desse post (um porta-copos que eu trouxe da Irlanda) ou clicar aqui.