Ela é uma das joias da Espanha. Essa cidade murada, circundada pelo rio Tejo, já foi a capital do país. E antes de ser capital dos espanhóis, Toledo já havia sido capital dos muçulmanos (séc VIII a XI) e dos visigodos (séc V ao séc VIII).

Suas ruas estreitas tem tanta história de reis, nobres e religiosos, árabes, judeus e cristãos, que as ruínas romanas, que também existem lá, passam quase despercebidas.

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Além do charme das cidades medievais, Toledo tem uma catedral gótica impressionante, considerada uma das mais bonitas da Espanha e, com certeza, a mais bonita que eu já visitei.

Pra conhecer Toledo, dá pra fazer um bate e volta de Madri. Mas pra quem puder dormir lá: vale a pena.

Ficar dentro dos muros de uma cidade medieval à noite, depois que a maioria dos turistas vai embora, é muito divertido!

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Uma viagem pela história de Toledo: ruínas romanas

A cidade foi fundada no século III AC, pela tribo dos Carpetanos, um dos povos Celtas que viveram naquela região.

Os Romanos chegaram nos século II AC e transformaram completamente a Península Ibérica. Construíram aquedutos e arenas. Do que eles construíram em Toledo, infelizmente, pouco se preservou.

Havia uma arena para mais de 13 mil espectadores. Dela, hoje, existem apenas ruínas mal cuidadas. As escavações são relativamente recentes e esse post tem fotos interessantes, desde o ano 1900.

Procurando bem, dá para achar alguns outros vestígios romanos. Esse post tem uma lista deles.

Mas o maior destaque para relembrar sua passagem pela cidade é a ponte de Alcântara, que, embora bastante modificada ao longo dos séculos, também é dessa época.

toledo kseniia ponte alcantara (3)Foto: Kseniia Kozlova

Invasões bárbaras

Quando o Império Romano enfraqueceu, 500 anos depois, os “bárbaros” ocuparam suas terras.

Eles eram tribos, povos sem a estrutura administrativa de um grande império.

No caso da Península Ibérica, os bárbaros que chegaram foram os Suevos, os Alanos e os Vándalos.

Os Romanos, para tentar recuperar essas terras, viram-se obrigados a unir-se aos Visigodos, um outro povo bárbaro.

Os Visigodos conseguiram expulsar os outros e controlar praticamente toda a área que é hoje Espanha e Portugal. Ficaram lá por 300 anos (séculos V, VI e VII).

Pra quem tem interesse em conhecer mais sobre a história da Península Ibérica na época dos Celtas, Fenícios, Cartaginenses, Romanos e Bárbaros recomendo esse vídeo.

Ele tem 6 minutos (em espanhol) e conta a história de todos os povos que viveram na área nesse período.

Toledo, capital dos Visigodos

No século VI, os Visigodos fazem de Toledo sua capital. Ao mesmo tempo, fortalecem sua monarquia, por meio de uma união jurídica e territorial dos vários reinos.

Logo aliam-se à Igreja e declaram o catolicismo como religião oficial.

Tudo parecia ir bem, exceto que os Visigodos viviam brigando entre si.

E quando Witiza chega ao trono, em 710, acontece uma guerra mais séria, na qual o rei é morto pelo exército de Don Rodrigo, duque de Andaluzia.

Don Rodrigo seria o último rei Visigodo da Espanha.

Ocupação pelos Mouros

Conta a lenda que Don Rodrigo violou Florinda, uma moça que estava se educando em Toledo e que era filha de Don Julián, conde de Ceuta.

Ceuta é um enclave espanhol no norte da África, região que na época era controlada pelos Mouros. E eles já estavam, há anos, interessados na Península Ibérica, que chamavam de Al-Andaluz.

Os Mouros aproveitaram-se da situação: Don Julián facilitou sua entrada na Península e, com 12 mil homens, os Muçulmanos enfrentaram 40 mil Visigodos na Batalha de Guadalete.

Como a gente sabe, os Árabes venceram. Eles rapidamente ocuparam a Península e ficaram por lá por 8 séculos, período que ficou conhecido na história da Europa como o da Reconquista.

Esse vídeo conta tudo sobre a Batalha de Guadalete. É longo, são 20 minutos em espanhol, mas eu me diverti assistindo.

Toledo foi ocupada sem luta, o exército havia ido todo para a guerra, não havia ninguém para defendê-la.

O que ficou dos Visigodos

Uma das especialidades dos Visigodos era a ourivessaria. Era tradição levar o tesouro real para as guerras e, com a derrota, ele desapareceu.

Mas, no século XIX, foi encontrado, em escavações na região de Toledo, um conjunto de coroas e cruzes de ouro de origem visigoda.

Ele ficou conhecido como Tesouro de Guarrazar e essa joias podem ser vistas no Museu Arqueológico de Madri e no Museu Cluny em Paris.

Os únicos vestígios dessa época que ainda podem ser vistos em Toledo são as peças expostas no Museu dos Concílios e da Cultura Visigoda.

O blog “Um Brasileiro na Espanha” tem alguns posts sobre isso.

Para quem quiser conhecer uma igreja visigoda, a dica é viajar um pouquinho.

A 50 km de Toledo está a Santa María del Meque. Acredita-se que ela tenha sido construída no começo do século VIII.

Toledo durante a ocupação muçulmana

Os árabes construíram muralhas para proteger a cidade, estrategicamente situada numa curva do rio Tejo, que a protegia por 3 lados. Algumas das portas dessa primeira muralha ainda estão de pé.

Uma das mais antigas é a Puerta del Afonso VI, chamada também de Puerta Vieja de Bisagra. Outra é a Puerta del Cambrón.

A cidade floresceu. Os muçulmanos permitiram a liberdade de culto. Foram construídas muitas mesquitas, mas igrejas e sinagogas também.

Esse é um dos fatores pelos quais Toledo, considerada pela UNESCO como Patrimônio Histórico da Humanidade, passou a ser conhecida como a Cidade das Três Culturas.

Uma das mesquitas desse tempo que ainda está em pé é a Bab Al-Mardum. Ela é um dos três monumentos mais representativos da arte Califal na Espanha.

sdrHoje ela é mais conhecida como Cristo da Luz, que é o nome que passou a ter mais adiante quando os cristãos retomaram a cidade.

Esse post do blog “Um Brasileiro na Espanha” fala especificamente dessa mesquita.

Pelo pátio, a gente chega na Puerta del Sol. Essa porta é bem mais recente, construída no século XIII, quando os cristãos já haviam retomado a cidade.

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Olhando de baixo, a Puerta del Sol é assim:

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Reconquista

Os cristãos levaram muitos séculos para reconquistar a Península Ibérica, e Toledo foi o primeiro passo importante nesse processo. Ela foi retomada por Afonso VI, rei de Castela, em 1085.

Ao contrário dos reinos cristãos da Península, os árabes tinham avançado muito nos últimos séculos, com destaque para medicina, astronomia e álgebra.

E Afonso VI, reconhecendo essa superioridade, manteve a tolerância religiosa que já existia na cidade.

Duas sinagogas construídas nessa época ainda estão lá. A mais bem preservada é a Santa Maria la Blanca, construída no final do século XII.

A outra é a Sinagoga de Samuel ha-Leví, também conhecida como Sinagoga del Transito, construída no século XIV.

Arquitetura Mudéjar

Uma das consequências da harmonia entre as religiões é o estilo arquitetônico da cidade.

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Os muçulmanos que continuaram vivendo em territorios cristãos eram chamados mudéjares, termo que tem origem em uma palavra árabe, que significa “domesticado”.

Nessa época, surgia na Espanha um estilo artístico que misturava a tradição árabe com as  correntes artísticas cristãs (românica, gótica e renascentista).

O resultado é a arquitetura mudéjar, que predomina nas construções de Toledo.

Os prédios mais importantes que representam esse estilo são a Ermita de Cristo da Vega e as igrejas de Cristo da Luz e a de Santiago de Arrabal.

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Esse post, do blog “Arteguias”, conta mais sobre a arquitetura mudéjar e tem um guia sobre onde vê-la em Toledo.

Centro Cultural da Europa

A tolerância religiosa possibilitou a fundação da Escola de Tradutores, no século XII.

Esse foi um dos elementos que transformou Toledo no centro da cultura europeia.

O acesso a clássicos gregos que haviam sido traduzidos para o árabe e que, agora, estavam sendo traduzidos para o latim e o castelhano, atraiu filósofos, médicos e pensadores de toda a Europa.

Além disso, Toledo era a sede do reino de Castela, um dos mais poderosos da Península.

Com a expulsão definitiva dos Mouros, Castela passa a ser hegemônica na Península – e isso aumenta a fama e a atratividade da cidade.

É dessa época a construção da Catedral Primada, uma igreja gótica espetacular.

27541051_2009154812431991_2922847974705162062_n (2)Foto: Kseniia Kozlova

Ela foi construída no mesmo local onde antes havia uma igreja visigoda, que, com a ocupação muçulmana, havia sido transformada em mesquita.

Eu fiz uma visita guiada na Catedral (com audio guide) e recomendo muito.

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A Catedral é gigantesca, e, além de ter uma arquitetura riquíssima, que combina o gótico com outros estilos, tem obras de arte de Velazquez, Goya e El Greco.

Além disso, é possível subir na torre, de onde se tem uma vista linda da cidade.

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Outro prédio religioso importante dessa época é o monastério de San Juan de los Reyes, fundado pelos Reis Católicos, Fernando II de Aragao e Isabel I de Castela.

Foi por meio do casamento deles, em 1469, que a Espanha foi unificada.

Capital de um dos maiores impérios da história da Europa

A cidade atinge seu máximo esplendor na época de Carlos I (1500 – 1558), um dos maiores herdeiros da história.

Ele era neto, por parte de mãe, dos Reis Católicos, e, assim, era rei da Espanha.

Por parte de pai, ele era neto de Maximiliano I, imperador do Sacro Império Romano Germânico (dinastia Habsburgo), e de Maria de Borgoña, herdeira de territórios nos Países Baixos e na França (dinastia Valois-Burgundy).

Quando assumiu o trono do Sacro Imperio Romano Germânico, em 1519, passou a ser conhecido também como Karl V (ou Charles V).

Foi ele quem expandiu as conquistas espanholas nas Américas. E a prata trazida do continente foi fundamental para a manutenção do seu vasto império, sediado em Toledo.

É dessa época a Plaza Mayor da cidade, chamada de Zacadover.

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Em 1550 foi construída na muralha a Puerta Nueva de Bisagra, que tem na fachada norte o escudo imperial de Carlos.

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É também dessa época o surgimento de palácios renascentistas, com destaque para o de Álcazar.

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Estando por ali, sugiro uma caminhada até os miradores. A vista é linda. No mais alto deles tem também um bar. Lugar perfeito para um pôr-do-sol.

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Cidade Conventual

A corte vai pra Madri em 1561. Com isso, Toledo deixa de ser um centro de poder político, ficando apenas com o poder religioso.

Em 1577 chega à cidade o pintor El Greco, que na verdade se chamava Domenicos Theotokopoulos.

O artista, que hoje tem quadros expostos nos principais museus no mundo, viveu em Toledo até sua morte, em 1614.

Ele é considerado um artista individual, que não se encaixa em nenhum estilo artístico tradicional, e precursor do expressionismo e do cubismo.

Esse post mostra suas 10 principais obras, a maioria de caráter religioso. Sua obra prima está em Toledo, na igreja de San Tomé.

Ela se chama “El entierro del Senor de Orgaz” e aqui tem um vídeo que explica detalhe a detalhe do quadro (em espanhol, 4 minutos).

Há muitos outros lugares onde se pode ver obras de El Greco em Toledo, tanto em igrejas quanto em uma casa-museu dedicada a ele.

Falando em igrejas, uma das mais bonitas dessa fase é a de San Ildefonso, também conhecida como Igreja dos Jesuítas.

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Ela foi construída em 1629, em estilo barroco.

Pra terminar

Eu fui de trem pra Toledo e me arrependi.  A estação de ônibus é mais próxima do centro da cidade e o tempo de viagem é praticamente o mesmo.

Sugiro entrar na cidade pela Porta de Bisagra, aquela com o brasão de Carlos V, terminar o passeio nos arredores do palácio de Alcázar e descer pela estradinha que termina na ponte de Alcântara. A vista é linda!

O blog “Ideias na Mala” tem um post bem legal com um roteiro de 1 dia em Toledo, que mostra como visitar a maioria dos lugares de que falei aqui.

Para quem quiser dormir na cidade, sugiro procurar um hotel dentro da muralha.

Cidades medievais costumam ficar vazias depois que os turistas de bate-e-volta vão embora. E fica muito mais agradável e divertido caminhar pelas ruas da cidade vazia, à noite ou de manhã cedinho.