Portugal conquistou seu lugar na história do mundo nos séculos XV e XVI, quando deu início à Era dos Descobrimentos.

O termo é vago, mas refere-se ao período em que os europeus navegaram os oceanos descobrindo novas rotas marítimas e grandes porções de terra.

E tudo começou em Portugal, com o príncipe Dom Henrique, que entrou na história como Henrique, o Navegador.

É disso, e do que aconteceu antes e depois no país, que a gente vai falar nesse post.

A origem de Portugal

Quem nasce em Portugal é chamado lusitano porque há mais de dois mil anos vivia por lá um povo celta com esse nome.

Quando os romanos ocuparam a região, criaram uma província chamada Lusitânia, que correspondia a praticamente o território atual do país.

Apenas o extremo norte atual ficava em outra província, chamada Galícia.

Eles também fundaram a cidade de Portus Cale, que mais tarde daria origem ao nome do país e, atualmente, é a cidade do Porto.

porto portugal

Porto, segunda maior cidade de Portugal

Os romanos ficaram em Portugal até o século V.

Ainda é possível ver um templo desse época, em homenagem à deusa Diana, na cidade de Évora (próxima a Lisboa).

Portugal como parte da Península Ibérica

Nos séculos seguintes, a história de Portugal foi praticamente a mesma da Espanha, sendo o território controlado primeiro pelos visigodos e, depois, pelos muçulmanos.

No post sobre a história da Espanha, já falamos que a resistência cristã concentrou-se na região norte da península. 

Aos poucos esses cristãos, que haviam formado o Reino de Leão (hoje parte da Espanha), foram reconquistando territórios para o sul, incluindo as regiões do Porto e Coimbra.

Foi por aí que o termo Portus Cale virou Portucale, nome pelo qual toda a região entre os rios Douro e Lima passou a ser chamada.

À medida em que novos territórios iam sendo conquistados ao sul do rio Douro, eles iam formando uma nova província, chamada Coimbra. 

O rio Mondego, ao sul de Coimbra, foi, durante vários séculos, a fronteira entre o mundo cristão e o mundo muçulmano.

Nesse tempo, tanto a província do Porto quanto a de Coimbra eram vassalas do reino de Leão.

Portugal Independente

O começo da história de Portugal como país envolve uma guerra entre mãe e filho, a Batalha de São Mamede, em 1128.

Guimarães, onde aconteceu a Batalha de São Mamede

Guimarães, onde aconteceu a Batalha de São Mamede

A mãe era D. Teresa, filha do rei de Leão e Castela, Afonso VI. 

Ela era casada com D. Henrique de Borgonha, um cavaleiro francês que, como muitos outros, ajudava os cristãos no combate aos muçulmanos.

D. Henrique, ao casar com D. Teresa, recebeu todas as terras ao sul do Minho, e, em troca, tinha compromissos feudais com o rei de Leão.

Mas ele ignorava esses compromissos, e conseguia manter autonomia em seu território.

Quando D. Henrique morreu, sua esposa foi pressionada por Afonso VII, novo rei de Leão, a cumprir os compromissos feudais. Ela aceitou.

Seu filho, D. Afonso Henriques, não concordava. E lutou contra sua mãe, na famosa Batalha de São Mamede.

Ele venceu. E ele queria mais do que aquelas terras: ele desejava expansão territorial e o título de rei. 

A luta contra seu primo Afonso VII estendeu-se até 1143, quando obteve o título de rei, mas mantendo ainda o compromisso de auxiliar Leão em guerras sempre que necessário. 

A independência de fato viria algumas décadas depois. 

Nessa época Portugal correspondia ao espaço entre os rios Minho e Mondego, sendo Coimbra, Porto e Braga suas cidades mais importantes.

Expansão terrestre

No post sobre a Espanha Muçulmana eu contei sobre a união dos reinos cristãos no século XII para tentar expulsar os mouros da Península Ibérica. 

Foi nesse contexto que, a partir de 1130, D. Afonso Henriques começou a conquistar permanentemente mais territórios ao sul. 

A conquista definitiva de Lisboa aconteceu em 1147.

Castelo de São Jorge, em Lisboa

Castelo de São Jorge, em Lisboa

A fase final da Reconquista, quando foram ocupados o Alentejo e o Algarve, aconteceria entre 1220 e 1250.

Ao final do século XIII, além de Porto, Coimbra, Braga e Lisboa, havia outras cidades importantes como Évora e Silves.

No século XIV, Lisboa já tomara a liderança, tornando-se a maior e mais importante de todas elas.

O rei mais importante dessa fase foi D. Diniz, que promoveu a aproximação de Portugal com outras cortes europeias e promoveu a cultura e as artes, sendo, inclusive, o fundador da Universidade de Coimbra (que, originalmente, foi fundada em Lisboa), em 1290.

Expansão Marítima

Os portugueses já detinham, desde o começo do século XIV, as condições tecnológicas para as grandes navegações. 

Dos romanos e muçulmanos haviam herdado o conhecimento de várias ciências e equipamentos, como a bússola e o astrolábio. 

E foi um príncipe, o infante Dom Henrique, quem promoveu a exploração marítima a partir da década de 1420.

Em 1415, ele já havia participado de uma vitória importante de Portugal, a conquista de Ceuta, no norte da África.

A partir de 1420, de volta a Portugal, Henrique tornou-se Mestre da Ordem de Cristo e passou a usar seus recursos para financiar expedições marítimas, reunindo os melhores geógrafos e navegadores da época.

O objetivo inicial das viagens no Atlântico era obter ouro e escravos no oeste da África e estabelecer colônias em ilhas inexploradas.

Os portugueses já tinham estado nas Ilhas Madeira e Canárias. Logo descobririam e tomariam posse das 9 ilhas do Arquipélago dos Açores, das quais já falei aqui.

Vinhedos da Ilha do Pico, no Arquipélago dos Açores

Os mapas de ventos e correntes do Atlântico desenvolvidos pelos portugueses nessa época eram tão precisos que seriam usados por muitos outros navegadores a partir de então.

Seu grande mérito foi conseguir dobrar o cabo Bojador, na altura do Saara Ocidental. Isso abriu o caminho para a Guiné e Cabo Verde.

E, em seguida, conseguir dobrar o Cabo das Tormentas (também chamado de Cabo da Boa Esperança), no sul do continente africano. Isso possibilitou a chegada de Vasco da Gama às Índias em 1498.

O sucesso econômico da expansão marítima vinha não apenas do ouro, mas, também, do comércio de escravos negros, que portugueses compravam na África e revendiam para Castela, Aragão e outros países europeus.

Por pouco a América não foi descoberta por Portugal: Cristóvão Colombo, antes de oferecer seus serviços para os reis de Castela, havia proposto ao rei português D. João II uma viagem marítima às Índias pelo ocidente. 

A oferta foi rejeitada porque os portugueses desconfiavam – com razão – que o melhor caminho para as Índias era pelo oriente. 

Quando Colombo retornou de sua viagem – que chegou à América, e não às Índias – o rei português afirmou que as terras descobertas pertenciam à Portugal, em função de tratado anterior entre Castela e Portugal que estabelecia que as terras ao sul das Canárias pertenciam a Portugal.

Foi nesse contexto que foi negociado o Tratado de Tordesilhas (1494), que estabelecia uma linha a 370 léguas (cerca de 1700 km) a oeste de Cabo Verde. 

Terras a oeste pertenceriam a Castela, terras à leste pertenceriam a Portugal. Isso garantia a Portugal o Brasil (oficialmente ainda não descoberto, mas há suspeitas de que Portugal já sabia de sua existência) e a rota marítima para as Índias.

A chegada às Índias abriu o Oceano Índico para os exploradores portugueses.

Portugal tinha a esquadra mais poderosa do mundo nessa época e derrotou facilmente os muçulmanos que controlavam o comércio marítimo na região.

Isso fez de Portugal um país rico e cosmopolita no século XVI, e os produtos exóticos que trazia das terras conquistadas eram comercializados por toda a Europa. 

Monumento aos Descobrimentos (ou Padrão dos Descobrimentos), em Lisboa

O sistema implementado pelos portugueses, com controle de portos e estabelecimento de colônias, possibilitou que eles mantivessem o controle do comércio marítimo por mais de cem anos.

União Ibérica (1580 – 1640)

A situação mudaria a partir de 1580, com um evento que mudou o rumo da história do país.

Em 1557 foi coroado rei de Portugal, com apenas três anos de idade, Dom Sebastião.

Ele era extremamente religioso e, com pouco mais de 20 anos, organizou uma cruzada no Marrocos, durante a qual morreu.

Seu tio-avô, cardeal Henrique, que não tinha filhos, foi seu sucessor. Quando ele morreu, em 1580, não havia descendentes diretos. 

E a coroa portuguesa passou para o rei Felipe II da Espanha, que era parente distante da casa real portuguesa. Isso deu início à União Ibérica (1580-1640).

Felipe II adotou uma política amistosa, mantendo portugueses no governo e representação portuguesa na sede do reino, em Madri. Mas seus sucessores não fizeram isso, o que provocou descontentamento em Portugal.

Além disso, a Espanha estava envolvida em muitas guerras e sofreu várias derrotas, na qual navios portugueses foram destruídos.

A mais famosa foi quando a Espanha viu sua Invencível Armanda (com muitos navios portugueses) ser destruída pela Inglaterra de Elizabeth I (sobre a qual falamos no post sobre Greenwich).

Derrotas espanholas no Mar Índico levaram Portugal a perder muitos dos territórios conquistados antes nessa região.

Duas revoltas em Portugal tentaram acabar com a União Ibérica, uma em 1634 e outra em 1637.

Mas foi a política castelhana de guerras contra a França e a Catalunha em 1640 e a requisição de tropas portuguesas para esse conflito que levaram ao movimento português de separação.

O resultado foi a coroação do duque de Bragança como rei João IV de Portugal. 

Embora a independência só tenha sido reconhecida pela Espanha em 1668, essa nova dinastia conseguiria manter-se no poder por vários séculos, até 1910.

Depois da União Ibérica

Nas primeiras décadas após o fim da União Ibérica, Portugal precisou defender-se da Espanha e garantir sua independência por meio de negociações com vários países europeus.

Após o reconhecimento da independência, o país pode finalmente beneficiar-se de sua conquista nas Américas.

A descoberta de ouro no Brasil em 1693 e de diamantes algumas décadas depois foi fundamental para manter a economia bem nessa fase.

Algumas décadas depois surgiria uma figura muito importante, o Marquês do Pombal. Ele foi apontado como ministro pelo rei José em 1750 e, logo, passou a exercer papel central na condução do país.

Pombal implementou reformas administrativas, promoveu a indústria e fundou uma companhia para estimular o comércio com o Brasil.

Quando um terremoto destruiu a cidade de Lisboa, em 1755, Pombal lidou bem com a situação e, rapidamente, promoveu sua reconstrução, fazendo dela uma das cidades mais bonitas da Europa.

Praça do Comércio, Lisboa

Mas quando o rei José faleceu, ele perdeu todo seu prestígio e poder. O país passou a ser governado pela rainha Maria I e seu marido Pedro III

Os tempos estavam tornando-se difíceis para os governos absolutistas: a Revolução Francesa estava abalando a Europa.

E quando Napoleão ameaçou entrar no país, a família real portuguesa, escoltada por navios ingleses, retirou-se para o Brasil (1807).

Portugal foi ocupada por apenas alguns meses, pois logo tropas britânicas chegariam ao país e conseguiriam negociar a saída dos franceses do país.

Eles ainda tentaram retornar duas vezes, mas sem sucesso. Em 1814 seria finalmente assinado o acordo de paz entre Portugal e França.

O desgaste da guerra, a ausência da família real e a presença de comandantes ingleses no país levariam a uma revolução em 1820, a chamada Revolução Liberal.

Ela começou no Porto e estendeu-se para Lisboa. Os revoltosos pediam uma constituição para o país e o retorno do rei. 

O rei D. João VI acabou voltando para o país no ano seguinte, dando início a uma monarquia constitucional.

Mas sua morte, alguns anos depois, abriu espaço para uma guerra civil. E muitas trocas de governo entre conservadores e liberais, daí até a década de 1860.

Depois de duas décadas tranquilas (1870-1880), as turbulências políticas recomeçaram, resultando no fim da monarquia em 1910.

Século XX

A partir de 1910 Portugal teve sua primeira experiência republicana, que foi tumultuada, passando inclusive por alguns momentos de ditadura.

Mas só a partir de 1933, com a promulgação de uma nova constituição, o país passaria de fato a ser uma ditadura, a do Estado Novo, que se estendeu até 1974. Seu principal líder foi Antonio de Oliveira Salazar.

O fim da ditadura deu-se por meio da Revolução de 25 de Abril, que ficou conhecida como Revolução dos Cravos, e foi motivada, principalmente, pelo desgaste com 14 anos de envolvimento na Guerra Ultramar (a luta por independência das colônias portuguesas na África).

As colônias tornaram-se independentes logo depois, em 1975.

A última colônia portuguesa, Macau, seria entregue à China em 1999.

Portugal hoje

A democracia portuguesa é hoje sólida, mas o país, que um dia já foi o maior império do mundo, tem uma das economias mais frágeis da Europa, sendo altamente dependente do turismo.

Os turistas, que são em sua maioria espanhois, britânicos, franceses e alemães (totalizando 60%), concentram-se nas praias do Algarve e na capital Lisboa, regiões que, juntas, concentram 55% da capacidade hoteleira do país.

Alvor, uma das praias do Algarve

Uma das muitas praias do Algarve

Eu sou apaixonada pelo país, que já visitei várias vezes. E tem muito mais para conhecer do que Algarve e Lisboa!

Pra entender melhor o país e decidir o que você quer visitar por lá, leia meu post De carro em Portugal: roteiro do Porto ao Faro.

Se você é como eu e adora visitar universidades mundo a fora, leia meu post sobre Coimbra, cidade onde fica a universidade mais antiga de Portugal e uma das mais antigas da Europa.

Universidade de Coimbra

Finalmente, se você adora ilhas, descubra o arquipélago dos Açores nos vários posts que escrevi sobre essas 9 ilhas portuguesas no meio do caminho entre a Europa e a América do Norte.

Ilha de São Miguel, no Arquipélago dos Açores

Ilha de São Miguel, no Arquipélago dos Açores