Ela é a capital da Espanha desde 1561. Mas a cidade tem história desde o ano 850, quando as primeiras muralhas foram construidas pelos árabes, num monte, às margens do rio Manzanares.

E é nesse ano que começa o nosso passeio pela cidade, que vai nos levar ao Palácio Real, ao centro da vila medieval e à Plaza Mayor, três das principais atrações turísticas de Madri.

Pelo caminho, a gente combina duas coisas que eu adoro: comida e literatura.

Vamos passar pelo Convento onde são produzidos os melhores biscoitos da cidade. Pelo restaurante que o Guiness diz ser o mais antigo do mundo, citado por Hemingway em dois de seus livros.

Vamos parar no Mercado de San Miguel, conhecido como um dos melhores lugares para comer tapas e conhecer a cozinha espanhola. Visitaremos o monumento ao escritor Cervantes, autor de Don Quixote, na Plaza de España.

E, pra terminar, vamos descansar na Montaña del Principe Pio, às margens do rio Manzanares.

Ela é parte da história recente da Espanha. E é também o lar de um templo egípcio original, construído há mais de dois mil anos.

A muralha “árabe”

No ano 711, a península Ibérica havia sido ocupada pelos mouros, que eram muçulmanos do Magreb (norte do continente africano).

Em geral, as pessoas referem-se aos invasores como “árabes”. Nao é o termo exato, mas é bastante usado.

No ano 850, o emir Mohamed começou a construção de uma muralha às margens do rio Manzanares.

Ela era parte de um sistema defensivo para proteger o castelo de Toledo. E foi construída nessa região por vários fatores, entre eles, a abundância de água.

À propósito, é da água que veio o nome da cidade. O nome árabe da fortaleza era Maŷrit, que mais tarde se transformaria em Madrid.

Maŷrit tem origem na palavra árabe para arroio (Maŷr) ou em um nome anterior da localidade – algumas teorias dizem que seria da palavra Matrice, termo íbero romano que significa “mãe das águas”.

As pedras utilizadas na construção da fortaleza foram de sílex (pederneira), a mesma pedra usada para fazer fogo.

E, por isso, quando os Cruzados, que estavam tentando recuperar a península, jogavam flechas contra os muros, eles faiscavam.

Dessa combinação de água e fogo veio o primeiro lema da cidade, hoje já um pouco esquecido, mas ainda pintado num muro da Plaza de Puerta Cerrada.

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Não se sabe bem se tudo começou com a muralha ou se já havia pessoas morando por ali antes.

O que se sabe é que, depois que ela foi construída, a cidadela foi crescendo.

Um dos primeiros prédios foi, claro, uma mesquita. Mas havia também cristãos e judeus, e, enquanto a cidade crescia, todos viviam em harmonia, cada um praticando sua religião.

E assim foi até 1083, quando Madri foi reconquistada pelos Cruzados. Os muçulmanos da cidade foram obrigados a converter-se à fé cristã.

A mesquita foi transformada em Igreja. Outras igrejas foram construídas.

Como aquela primeira ficava do lado de dentro dos muros, passou a ser chamada Santa Maria de Almudena (do árabe al-mudayna, que significa cidadela).

Essa é a Plaza de la Villa, centro da cidade na época medieval.

O prédio mais antigo que ainda está de pé é a “Casa e Torre dos Lujanes”, construída no século XV.

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Saindo por essa ruinha estreita que aparece à esquerda a gente chega num lugar bem pitoresco da cidade: o Convento das Carboneras.

Há muitos conventos e monastérios em Madri, mas esse ficou famoso por seus biscoitos e forma de venda: essa janelinha, onde a gente coloca o dinheiro e recebe os doces.

conventoFoto: blog GoMadrid

Trata-se de um convento de clausura. As freiras que moram lá não tem contato com o mundo externo.

E, por isso, para vender seus famosos biscoitos, usam essa misteriosa janelinha.

Eu não consegui prová-los, mas dizem que os biscoitos são divinos!

Esse post fala dos horários em que é possível comprá-los.

Ali pertinho fica o restaurante Botin. Vários restaurantes alegam ser o mais antigo do mundo, mas esse conseguiu o certificado do Guiness World of Records.

E ele tá na porta:

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O Botin é o lugar ideal para comer o prato típico de Madri, o Cochinillo (leitão) Assado.

O escritor Hemingway, que passou uma temporada na cidade, era fã. Ele cita o Botin e seu Cochinillo em dois de seus livros.

  • “O Sol Também se Levanta” (1926): “Almoçamos no primeiro andar do Botín. É um dos melhores restaurantes do mundo. Comemos leitão assado e bebemos Rioja Alta.”.
  • “Morte à Tarde” (1932): “… entretanto, preferia comer leitão no Botín em vez de me sentar e pensar nos acidentes que pudessem sofrer os meus amigos.”

Eu não me animei a comer o Cochinillo… ia morrer de pena de comer esse porquinho… Espia esse vídeo e depois me diz se tem coragem ou não.

Do lado de fora da Muralha Cristã

No começo do século XIV, já havia um segundo muro na cidade.

madri lagoaFonte: Miradas de Madrid

À direita desse muro externo tem o desenho de uma lagoa. É que ali, até o século XII, havia um descampado, que, em espanhol da época, se chamava laguna.  O descampado pertencencia à família Luján.

Por desconhecimento, alguns dizem que “a lagoa secou e depois se transformou em uma praça de mercadores”.

Bom, nunca foi lagoa. Mas virou ponto de encontro de mercadores e, durante o século XV, passou a ser chamada de Praça do Arrabal (que significa periferia, em espanhol).

Mas a história da vila se transforma no século XVI. E, com ela, essa praça, que se transformaria na principal da cidade.

Madrid de los Austrias

Com a expulsão definitiva dos árabes, a Espanha começou a se organizar como país.

A primeira rainha foi Joana, a Louca (1479 -1555). Ela casou-se com o arquiduque Filipe de Habsburgo, herdeiro do Sacro Império Romano-Germânico, com sede na Áustria.

O filho deles, Carlos I, foi não apenas rei da Espanha, como também Imperador de todo o Sacro Império (onde ficou conhecido como Charles V).

E foi o filho dele, Felipe II , que fez de Madri a capital da Espanha, em 1561 (até esse ano a capital do reino era Toledo, a 80 km dali).

Os descendentes dos Habsburgos, além de trazer a capital do país para Madri, também desenvolveram e embelezaram a cidade durante o tempo em que ocuparam o trono espanhol (1479 – 1700).

Por isso, essa região que vai da Catedral de Almudena ate a Plaza Mayor ficou conhecida como Madrid de los Austrias.

Plaza Mayor

Com a mudança da corte para Madri, a Plaza de la Villa ficou pequena. Felipe II então decidiu fazer daquela antiga feira de mercadores, na Laguna dos Lujanes, a praça principal (Plaza Mayor) da cidade.

Ela continuaria sendo o mercado, mas passaria a ser também um lugar de espetáculos.

Desse lado, onde hoje é o Centro Turístico de Madri, ficava a Padaria.

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Na sua frente, o Açougue.

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Os outros prédios eram residenciais. Neles moravam os membros da Corte.

No meio da praça aconteciam regularmente feiras e espetáculos de todos os tipos – de corridas de touros a execuções.

davOs donos das sacadas, voltadas para a praça, costumavam “vender ingresso” para quem quisesse assistir aos espetáculos com sua vista privilegiada.

Desde sua criação, a praça passou por três grandes incêndios. A reconstrução sempre manteve o estilo medieval, quadrado.

Hoje são, ao todo, 377 janelas com sacadas voltadas para a praça e 114 arcos, sendo 8 deles arcos de acesso.

davUma boa hora para circular por lá é de madrugada: com sorte é possivel encontrar  Cirilo, o mais famoso dos fantasmas da praça.

Outra opção é  tomar uma taça de vinho no fim da tarde, observando o intenso movimento de turistas.

Ou tomar um café provando o churros espanhol. Diferente do brasileiro, ele não é recheado.

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A gente vai molhando no chocolate enquanto come.

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O vinho e o café vão ser bem mais caros do que nos outros lugares, afinal, esse é o coração de Madri.

Mas observar o movimento da praça e pensar sobre tudo que ja aconteceu lá é uma memória interessante para guardar da cidade. E isso não tem preço.

Outro motivo para visitar a Plaza Mayor é que, a partir de lá, é possivel fazer uma visita guiada gratuita pelo centro histórico da cidade. Eu fiz com a Sandeman, e valeu a pena.

Mercado de San Miguel

Já que estamos na Plaza Mayor, vamos dar uns passos para fora da praça e um salto no tempo e conhecer o Mercado de San Miguel.

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Ele foi construído em 1916 e é hoje um dos poucos prédios de Madri representando a arquitetura de metal e vidro típica do início do século XX.

Poderia ser uma armadilha para turistas, já que fica no coração do centro histórico. Mas não é.

Ele é conhecido por ser um lugar interessante para conhecer a cozinha espanhola, ja que os mais de 30 estandes vendem tapas de vários tipos por preços razoáveis.

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A dica é pegar uma taça de vinho na chegada e ir circulando e experimentando tudo que for aparecendo de interessante pelo caminho.

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O mercado fica aberto o dia inteiro.

Para quem quer caminhar por lá com tranquilidade, experimentando um pouco de tudo, o melhor dia é terça-feira. E os horários mais calmos são antes das 11:30 ou entre 16:00 e 19:00.

Para quem quer agito, basta chegar mais tarde. Ele fica aberto até a meia-noite, de domingo à quarta-feira; e até às duas da manhã, de quinta à sábado (os dias de maior movimento).

Para quem quer visitar outros Mercados, esse post é um bom começo: indica 6 dos melhores de Madri.

Uma imagem bonita de Madri

Com a família real, chegou no século XVI a Inquisição. E os judeus, por motivos econômicos e religiosos, foram expulsos da cidade.

A Madri medieval era agora totalmente cristã.

Mas sua Catedral, que substituiu a igreja que existia no lugar daquela primeira mesquita árabe, manteve o nome mouro.

Ela se chama, até hoje, Catedral de Almudena.

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Da combinação de árabes, judeus e cristãos vem uma das memórias mais bonitas que tenho de Madri: é a vista do parque Emir Mohamed I, a partir da rua Cuesta Ramon.

Lá ainda está a muralha moura do ano 860. A Catedral está logo atrás. E, para lembrar dos judeus, que também viveram na mesma área, acrescentou-se ao parque uma estrela de David.sdr

Três religiões. Integradas. Em paz.

O Palácio Real de Madri

Exatamente na frente da Catedral está o Palácio Real, construído por Filipe V, o primeiro rei espanhol da dinastia Bourbon (família que substituiu os Habsburgos e que está no trono até hoje).

Ele era neto de Luis XIV, da França, e nasceu em Versailles. Sob essa inspiração, mandou construir seu  próprio palácio em Madri, em 1738.

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A família real não mora mais lá, mas ele ainda é usado para eventos oficiais.

Quem quiser, pode visitá-lo. Sugiro comprar ingresso antecipado, tinha filas enormes quando eu estive lá. Para fazer isso, clique aqui.

Atrás do palácio, ficam os Jardins de Sabatini.

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Do outro lado dele fica o parque Campo del Moro, onde a família real costumava caçar (a caça é um dos esportes mais tradicionais das monarquias europeias).

O maior escritor da língua espanhola

Um pouco adiante dos Jardins de Sabatini fica a Plaza de España. Lá está um dos monumentos a Cervantes que existem em Madri, o mais fotografado deles.

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À frente estão Don Quixote e Sancho Pança, os dois personagens mais famosos do autor.

Cervantes aparece logo atrás, sentado, segurando um exemplar de Don Quixote.

No alto, a bola representa o mundo. Ela está circundada por cinco mulheres, cada uma representando um continente. A ideia aqui é mostrar a difusão de Don Quixote por todo o planeta.

A parte de trás do monumento refere-se à língua espanhola. Vinte placas brancas simbolizam as vinte nações que tem espanhol como a língua oficial.

Esse post, do blog Una Ventana desde Madrid, conta mais sobre esses e outros detalhes do Monumento.

Parque do Oeste

Caminhando mais alguns metros chegamos à Montaña do Príncipe Pio, que fica em um dos extremos do Parque do Oeste, acompanhando o rio Manzanares.

Lá fica um dos melhores miradores de Madri. E, também, o Templo de Debod.

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Ele é um original templo egípcio, construído a partir do século II antes de Cristo. Foi abandonado no século VI e inundado a partir de 1898.

Em função da construção de uma represa para controlar o caudal do Rio Nilo, esse e outros templos estavam ficando submersos 10 meses por ano.

Em 1954, o governo do Egito anunciou a construção de uma represa ainda maior, que alagaria Abu Simbel, onde estavam dois templos de Ramsés (1279 – 13 AC), considerados pela Enciclopédia Britânica “exemplares espetaculares de antiga arte egípcia”.

A UNESCO decidiu fazer um chamado internacional para salvar esses templos.

Com recursos financeiros e científicos de mais de 50 países, os templos foram desmontados e remontados em uma área mais segura.

Ao longo desse trabalho, outros templos também foram resgatados. O governo egípcio havia definido que doaria 4 desses templos, incluindo Debod, aos países que mais ajudassem.

E foi assim que, em 1969, chegaram a Madri 90 caminhões, trazendo 1350 caixas, com as pedras do templo.

Que foi reconstruído onde está hoje, na Montaña do Príncipe Pio.

Fuzilamentos e Arte

Mas muito antes antes de receber Debod, o parque foi o cenário da obra mais famosa de Francisco de Goya, “El Tres de Mayo de 1808 en Madrid“.

Tres_de_Mayo_by_GoyaFrancisco de Goya [Public domain or Public domain], via Wikimedia Commons

O quadro, que está hoje no Museo do Prado, representa o início da revolta dos espanhóis contra o exército de Napoleão, que havia ocupado a cidade.

Houve fuzilamentos em vários locais de Madri, mas acredita-se que a imagem pintada por Goya aconteceu no Parque do Oeste, mais precisamente na saída do Teleférico Paseo de Rosales.

Esse post do blog Caminando por Madrid dá mais detalhes.

Pra terminar

Tem muito mais para ver na cidade!

Nas próximas semanas vai ter post novo, contando sobre outros pontos turísticos como a Puerta del Sol, o Bairro das Letras, o Parque del Retiro e os Museus: do Prado, Rainha Sofia e Thyssen-Bornemisza.

Também vou escrever sobre tapas e pinchos, tradição do país.

E desbravar zonas menos turísticas, como Malasaña e Chueca.

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