A Escócia ocupa um terço da ilha da Grã-Bretanha (onde também ficam a Inglaterra e o País de Gales) e cerca de 900 ilhas, distribuídas em 3 arquipélagos principais: Shetland, Orkney e Hebrides.

Ela era um país independente até 1707, quando uniu-se à Inglaterra e passou a fazer parte do Reino da Grã-Bretanha.

A questão da independência é importante até hoje. Em 2014 houve um plebiscito no país, em que a população decidiria se continuava nessa união ou voltaria a ser um país independente.

É sobre a história da formação da Escócia, dos muitos séculos de independência, do período em que uma família real escocesa governou a Inglaterra e de como a Escócia deixou de ser independente e passou a fazer parte do Reino da Grã-Bretanha (e até hoje fala em sair) que eu te conto nesse post.

Os escoceses

Foram os romanos, que chegaram na região em torno do ano zero, que começaram a chamar os povos celtas que viviam no noroeste da ilha da Grã-Bretanha de Scots.

Eles eram, de fato, Gaélicos, possivelmente o mesmo povo celta que vivia na ilha da Irlanda. A região que eles ocupavam está em verde no mapa abaixo.

Já no leste e norte do país vivia um outro povo, que falava um outro idioma celta.

Não se sabe como eles chamavam a si mesmos, mas os romanos referiam-se a eles como Picts (que, provavelmente, vem da palavra pictus, que, em latim, significa tatuado).

A região onde eles viviam aparece nesse massa em amarelo.

Verde Dal Riata e Amarelo Pics

Área em verde era ocupada pelos Scots; em amarelo, pelos Picts. Fonte: WikiCommons (Public Domain)

Depois de muito brigarem entre si, esses povos uniram-se em um só reino, o Reino de Alba. O primeiro rei dos dois povos foi Kenneth MacAlpin, a partir do ano 843. Essa é a data aceita como data de origem da Escócia.

Macbeth, Shakeaspeare e a História

Macbeth, que governou a Escócia de 1040 a 1057, é provavelmente o rei escocês mais famoso. Por um motivo simples: ele virou personagem de Shakeaspeare.

Na peça, Macbeth é um anti-herói. Ele seria um general escocês que teria ouvido a profecia de uma bruxa dizendo que ele seria rei.

E, por esse motivo, ele teria armado uma cilada para o rei Duncan, mantando-o enquanto ele dormia. Macbeth torna-se rei, mas é atormentado pela culpa.

Algum tempo depois, um dos filhos de Duncan, Malcom, volta para recuperar o trono. Macbeth é derrotado e tudo volta ao normal na Escócia. Final feliz.

Na vida real não foi bem assim. Macbeth e Duncan provavelmente eram primos, cada um sendo filho de um das filhas de um Malcom anterior (Malcom II).

Quando Malcom II morreu, Duncan assumiu o trono, mas seu primo Macbeth também se achava no direito.

Duncan, sentindo-se ameaçado, foi atacar Macbeth, mas morreu na batalha. E Macbeth virou rei.

Foram muitos anos até o filho de Duncan, Malcom, voltar para vingar-se. O reinado de Macbeth foi, em geral, tranquilo; e ele é considerado um rei justo. Também foi um dos responsáveis pela expansão do cristianismo na Escócia.

Seu reino termina com a volta de Malcom para vingar o pai. Em 1058, com Macbeth morto, a Escócia passa a ser governada por Malcom III.

As relações entre Escócia e Inglaterra

Foi na época de Malcom III que aumentaram as relações entre esses dois países, que, atualmente, são parte do mesmo Reino.

Malcom III tinha vivido muitos anos na Inglaterra, que, em 1066, foi invadida pelos normandos (vikings que haviam se estabelecido na Bretanha, hoje uma das regiões da França).

Quando a Inglaterra foi invadida, Malcom deu asilo à Edgar, o herdeiro do trono inglês. Junto veio sua irmã, a princesa inglesa Margaret, com a qual Malcom casou-se.

Durante seu longo reinado (1058-1093), Malcolm, sob pretexto de ajudar seu cunhado a recuperar o trono, invadiu a Inglaterra cinco vezes. Acabou sendo morto em uma batalha.

Sua esposa, que mais tarde seria canonizada e passaria a ser chamada de Santa Margarete, viu 4 de seus filhos tornarem-se reis do país.

Dos 4, o mais importante para a história da região foi David I, que havia passado um tempo na Inglaterra e levou para a Escócia práticas normandas.

Foi ele quem introduziu no país o sistema feudal e a cunhagem e, também, promoveu a disseminação de mosteiros pela Escócia.

Quem visita Edimburgo, capital do país, vê ainda hoje duas de suas obras: o castelo de Edimburgo e a Abadia de Hollyrood (atualmente uma das casas da rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte).

Expansão Territorial

A Escócia atingiu o máximo de sua expansão territorial sob o governo de Alexandre II, que durou de 1214 a 1249.

Os escoceses estavam avançando tanto, que os ingleses acabaram assinando o Tratado de York, que definia oficialmente a fronteira entre os dois países. Ela ficava mais ou menos onde ficam os limites de hoje.

Quando o filho de Alexandre morreu sem herdeiros, começou uma disputa pelo trono escocês que levaria às guerras de independência.

Esse é o contexto do filme Coração Valente, estrelado por Mel Gibson e ganhador de 5 Oscars em 1996.

Guerras da Independência e Coração Valente (Brave Heart)

Como não havia herdeiro ao trono, surgiram vários candidatos. Livros falam em treze. Os dois que tinham mais argumentos para virar rei eram Robert de Brus e John Balliol.

Num impasse, os nobres escoceses pediram para o rei inglês, Edward, decidir. Ele concluiu que Balliol é quem tinha mais direito ao trono. Mas cobrou um preço bem alto por isso.

Edward exigiu que Balliol jurasse obediência a ele. E, também, que a Escócia ajudasse a Inglaterra numa guerra contra a França.

Balliol, ao contrário, resolveu aliar-se à França. Edward usou isso como desculpa para invadir a Escócia.

Poucos escoceses aceitaram Edward, rei da Inglaterra, como novo rei da Escócia, e, assim, começaram as guerras de independência.

Elas estenderam-se de 1296 a 1327 e o país tem dois grandes heróis desse período: William Wallace e Robert the Bruce, neto daquele primeiro Robert de Brus que tinha perdido o trono para Balliol uns anos antes.

Wallace, representado nas telas por Mel Gibson, venceu uma das batalhas mais importantes da história da Escócia, a Batalha de Stirling (1297).

Mas, depois de ser derrotado na Batalha de Falkirk, ele deixou sua posição de Guardião da Escócia e teve que fugir até 1305, quando foi preso e executado.

Com a partida de Wallace, Robert the Bruce passou a ocupar a posição de Guardião da Escócia.

Bruce conseguiu derrotar os ingleses em 1314, reconquistando a independência do país. Ela foi reconhecida pelo Papa em 1320 e, pela Inglaterra, em 1327.

Os escocese implicam com o filme estrelado por Gibson, Coração Valente (Brave Heart), porque dizem que a história foi mal contada.

Eu vou explicar melhor isso em um próximo post, onde vou contar sobre meu passeio pela cidade e pelo castelo de Stirling.

Stuarts: a família real escocesa que governou a Inglaterra por cem anos

Lá no começo eu falei que a Escócia não é um país independente, mas, sim, parte de um grupo de países que formam o Reino da Grã-Bretanha (que, mais tarde, passou a ser chamado de Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte).

Pra entender essa união, é importante conhecer essa Casa Real.

Existem quatro momentos diferentes no reinado dos Stuarts:

Fase 1 (1371-1503)

Eles são reis da Escócia. Essa fase começa quando um neto do Robert the Bruce, Robert Stewart, assume o trono.

O nome Stewart vem de seu pai, que casou com a filha de Bruce.

Fase 2 (1503-1603)

Por casamento, passa a haver uma união das Casas Reais da Escócia (Stuart) e da Inglaterra (Tudor).

Isso aconteceu quando James IV, rei da Escócia, casou-se com Margarete, herdeira do trono da Inglaterra.

Na prática, os dois países são independentes, cada um governado por um rei. Mas há laços de família, o que intensifica o relacionamento entre os países.

Foi nessa fase que viveu a famosa Mary, Rainha dos Escoceses, que já foi tema de vários filmes e virou até série do Netflix (Reign). Aqui tem uma lista de 9 produções sobre ela.

E foi por causa de Mary, que foi criada na França, que o nome da família mudou de Stewart (grafia inglesa) para Stuart (grafia francesa).

Mary ficou famosa por sua vida trágica. Esse artigo do Google faz um bom resumo.

Quem vai ao Castelo de Edimburgo pode visitar os aposentos em que ela viveu durante alguns dos poucos anos que ela passou na Escócia.

Fase 3 (1603 – 1707)

O filho de Mary, James VI, foi o primeiro Stuart a governar a Inglaterra.

Ele, que então já era rei da Escócia, herdou o trono inglês porque a última rainha Tudor da Inglaterra, Elizabeth I, morreu sem filhos.

Como eu falei antes, havia laços familiares entre as duas casas reais.

Ao herdar a coroa inglesa, ele passou a ser, além de James VI da Escócia, também James I da Inglaterra.

Os dois países agora tinham o mesmo rei, mas continuvam independentes.

A independência significava que, caso o monarca morresse sem herdeiros, cada país poderia escolher seu próprio rei ou rainha.

Fase 4 (1707 – 1714)

Havia interesse do governo inglês em garantir que o monarca da Inglaterra governasse também a Escócia.

Já os escoceses evitavam isso: na opinião deles, James e seus sucessores, apesar de escoceses, estavam muito mais preocupados com os interesses da Inglaterra do que com os da Escócia.

A Escócia resistiu às propostas de união até 1707, quando, no meio a uma série crise econômica, o parlamento escocês assinou um tratado com a Inglaterra.

Esse tratado criou o Reino da Grã-Bretanha, com sede em Londres, que existe até hoje.

Na prática, para a Escócia, ele significava o fim da independência. O país passou a ser governado por um monarca e um parlamento sediados na Inglaterra.

A Rainha Anne, que era quem estava no trono quando esse tratado foi assinado, foi a última Stuart a governar a Inglaterra e a Escócia.

Ela morreu sem filhos, e a coroa inglesa acabou passando dos Stuarts para a Casa de Hanover (de origem germânica).

Iluminismo na Escócia: Adam Smith e David Hume

Depois de algumas batalhas para resgatar a independência (a última foi a de Culloden, de 1746, que aparece na série Outlander), o assunto acalmou na Escócia.

Havia benefícios em ser parte da Inglaterra, especialmente em relação ao comércio e à industrialização.

Ao mesmo tempo, talvez motivados pelo fato da agora limitada participação política, os escoceses destacaram-se no Iluminismo, corrente de pensamento surgida no século XVIII, que promovia o uso da razão em todas as áreas do conhecimento e questionava o poder ilimitado da monarquia e a religião.

Foram muitos os pensadores escoceses que entraram para a história, mas os nomes de maior destaque provavelmente são David Hume e Adam Smith.

Nessa mesma época destacaram-se escritores como Sir Walter Scott e engenheiros como James Watt e Alexander Graham Bell.

Símbolo Nacional: o traje escocês

O orgulho de ser escocês foi transmitido de geração em geração e, apesar da união com a Inglaterra há 300 anos, a população ainda sente-se mais escocesa do que britânica.

É isso que mostra essa pesquisa da BBC, em que apenas 59% dos escoceses disseram sentir-se “muito britânicos” contra 82% dos ingleses.

Ser escocês, ainda segundo a pesquisa, significa, entre outras coisas, amar as paisagens do país, famoso pelas Highlands (Terras Altas), sua história e suas tradições culturais, incluindo o traje típico escocês (kilt, tartan e gaita de foles).

O traje típico é tão importante, que seu uso foi praticamente proibido no país depois da batalha de Culoden.

O objetivo: conter o nacionalismo escocês e enfraquecer os grupos que ainda resistiam à união com a Inglaterra.

O traje, que até então era usado no dia-a-dia pelos Highlanders, passou a ser limitado a uso oficial.

Isso incluia os regimentos das Highlands no Exército Britânico, que, na época, garantia a segurança do Império Colonial Britânico e estava presente em vários continentes.

E foi assim que o traje típico escocês passou a ser conhecido mundialmente.

O ressurgimento da luta por independência

Foi a partir do governo da Rainha Vitória (1837 – 1901) que os símbolos nacionais escoceses passaram a ser mais valorizados na cultura do Reino Unido.

A BBC tem um vídeo fofo (2 min) contando sobre a relação da rainha e sua família com o Castelo Balmoral, sua casa de campo na Escócia.

Pra quem quiser mais sobre o assunto, sugiro esse post do Blog QuarterMile.

Isso não impediu o crescimento do movimento de independência escocês, que levou a um plebiscito em 2014.

Um dos motivos principais de quem queria que a Escócia saísse do Reino Unido da Grã-Bretanha é a pequena representação do país no parlamento sedidado em Londres (também há um parlamento baseado na Escócia, mas sua autonomia é limitada).

Mas a maioria das pessoas que votaram no plebiscito escolheram pela permanência da Escócia no Reino (55% dos votos). Um dos principais motivos para ficar era a permanência na União Europeia.

Isso foi antes do Brexit, o movimento de saída do Reino Unido da Grã-Bretanha da União Europeia (UE). Foi nesse plebiscito, em 2016, que a população dos vários países que formam o Reino decidiu pela saída da UE (52% dos votos).

Mas não os escoceses. Na Escócia, apenas 38% dos votantes queriam a saída. A decepção com o resultado geral estimulou a ideia de realização de um segundo plebiscito local, para reavaliar a permanência da Escócia no Reino Unido. Saindo, a Escócia poderia negociar um retorno à UE como nação independente.

O plano era realizar esse segundo plebiscito em 2020, mas, em função da pandemia de COVID-19, o partido escocês que o promoveria comunicou que ele seria adiado até as questões de saúde do momento estejam resolvidas.

Independente ou não, a Escócia é um país lindo, que vale muito a pena ser visitado. Sua capital Edimburgo, com o castelo em cima do morro, e suas Highlands, tão peculiares, com certeza são um excelente motivo para conhecer o país.