Stirling é uma cidade de menos de 40 mil habitantes, que fica a 60 quilômetros da capital escocesa, Edimburgo.

Nela fica um dos castelos mais importantes do país, que foi alvo de muitas disputas entre ingleses e escoceses.

A mais famosa delas, que ficou conhecida como a Batalha da Ponte de Stirling, é retratada no filme Coração Valente, estrelado por Mel Gibson e vencedor de 5 Oscars.

O filme levou muita gente a pensar que William Wallace é o grande herói da Escócia. Isso é parte da verdade. A Escócia tem um outro grande herói, talvez mais importante do que ele: Robert the Bruce.

Os escoceses dizem que Bruce foi muito mal retratado no filme, que recebeu muitas críticas.

Nesse post eu te conto essa história e também sobre minha visita à cidade, ao castelo e ao monumento a William Wallace.

As Guerras de Independência

Em 1707, o parlamento escocês assinou um tratado de união com a Inglaterra, por meio do qual o país passou a ser parte do Reino da Grã-Bretanha.

Antes disso, a Escócia sempre havia sido um país independente, exceto por um curto período em torno do ano 1300, ficou conhecido como o das guerras da independência.

Foi nessa fase que viveram William Wallace e Robert de Bruce.

Tudo começou quando o rei escocês Alexandre III morreu sem herdeiros e surgiram vários pretendentes ao trono.

Num impasse, os “Guardiães da Escócia”, que eram os líderes dos nobres escoceses, aceitaram que o rei inglês, Edward, julgasse quem tinha mais direito ao trono.

Edward impôs que os candidatos aceitassem a superioridade de Inglaterra – o que eles aceitaram, já que queriam ser o escolhido.

A escolha de Edward foi John Balliol, que, a partir daí, passou a sofrer cobranças da Inglaterra.

A gota d’água foi a exigência de que a Escócia ajudasse o país vizinho numa guerra contra França. Os escoceses, indignados, escolherem o caminho oposto: uma aliança com os franceses.

Era o pretexto que Edward precisava para invadir a Escócia e ocupar o trono, o que aconteceu em 1296.

William Wallace

Sabe-se que ele era filho de um nobre de baixo escalão e que, assim como outros escoceses, uniu-se ao movimento de resistência aos ingleses.

Seu primeiro ato famoso foi matar o xerife de Lamark, que era inglês, o que fez dele um ícone da resistência.

Seguiram-se algumas vitórias até a mais famosa delas: a da Batalha da Ponte de Stirling.

Os escoceses, em número bem menor, posicionaram-se na beira de um rio e esperaram os ingleses começarem a atravessar a ponte.

Quando cerca de metade deles haviam passado, os escoceses avançaram, derrubando a ponte e matando a metade do exército inglês que já havia passado.

A outra metade, completamente impotente do outro lado, bateu em retirada.

O melhor jeito de entender a batalha é visitando o Monumento a William Wallace, que fica a 4 km do centro de Stirling.

A gente circula por um pequeno museu, que conta os detalhes da batalha em paineis como esse.

Stirling Escócia

E, subindo até o alto da torre, tem essa vista para o local da batalha.

Para programar uma visita, leia o site do Monumento.

Para chegar lá, o jeito mais fácil é pegar um táxi. Ele te deixa no centro de visitantes, de onde uma minivan leva os turistas até o alto do morro, onde fica a torre.

A outra opção é subir a pé, por uma trilha, em uma subida que leva entre 15 e 20 minutos.

Meu marido virou criança brincando em um aplicativo que permite que cada pessoa crie seu próprio brasão, que é então projetado em um escudo.

E ficou mais bobo ainda quando viu a espada de William Wallace, que tem quase a altura dele.

Depois da Batalha da Ponte de Stirling

Como reconhecimento por essas vitórias, Wallace recebeu o título de Guardião da Escócia e passou a ser responsável pela reorganização do exército.

Mas seu poder vinha apenas de seus sucessos militares e, menos de um ano depois, uma derrota importante, na Batalha de Falkirk, foi o suficiente para que ele tivesse que entregar o cargo de Guardião.

Conta a lenda – e o filme – que vários nobres escoceses que lutavam ao lado de Wallace estavam, na verdade, comprometidos com a Inglaterra e teriam simplesmente abandonado o campo de batalha durante o combate.

O rei inglês continuou perseguindo Wallace pelos anos seguintes, até que, em 1305, ele foi preso e executado.

Robert the Bruce

O título de Guardião passou para um nobre importante, Robert the Bruce.

Lembra do rei escocês que morreu sem herdeiros e foi sucedido por John Balliol? Pois o avô desse Robert, que também era chamado Robert, havia sido o principal concorrente ao trono.

Bom, você já pode imaginar que esse Robert estava louco para ocupar o trono escocês.

Em um dos episódios nebulosos da história escocesa, o potencial herdeiro de John Balliol foi assassinado (por Robert ou um de seus seguidores), e Robert the Bruce foi reconhecido pelo clero como rei da Escócia.

Os primeiros anos foram difíceis, combatendo não só a Inglaterra, como, também, grupos escoceses rivais.

Mas, depois de várias derrotas e um período exilado, Bruce e seus aliados conseguem, finalmente, derrotar o exército inglês, em 1314.

A Inglaterra só admitiria a derrota muito tempo depois, em 1327, quando até o papa já tinha reconhecido a independência da Escócia.

Bruce reinaria até sua morte, em 1329. E é um dos maiores herois do país.

Por que os escoceses não gostam do filme

O problema do filme Coração Valente é que ele junta as duas histórias de uma maneira que desfavorece Bruce, que, assim como Wallace, é herói nacional na Escócia.

Segundo o filme, Bruce estaria do lado do rei inglês na Batalha de Stirling e só teria virado “mocinho” depois da morte de Wallace.

Os escoceses conhecem outra história. As evidências indicam que Bruce estava lutando pela independência desde que Edward se disse rei da Escócia, lá em 1296.

Acredita-se que ele era um dos líderes ao lado de Wallace e que ele só não estava na Batalha da Ponte de Stirling porque estaria coordenando um outro levante.

Sabe-se também que ele não estava ao lado do rei inglês na Batalha de Falkirk. Ele estava ajudando Wallace, tentando bloquear a passagem dos ingleses no caminho.

Uma última diferença importante entre a vida real e o filme: dizem que Coração Valente (Brave Heart), o nome do filme ganhador do Oscar, não era o apelido de Wallace, mas, sim, o de Bruce.

Foi a vitória de Robert the Bruce na Batalha de Bannockburn (1314), também na região de Stirling, que fez com que a Escócia voltasse a ser independente até 1707.

Para saber mais sobre Bruce, leia esse artigo da BBC

Visitando o Castelo de Stirling

Ele tem mais de mil anos e, a partir de 1342, todos os reis da Escócia viveram nele.

A parte mais antiga do prédio que existe hoje é o portão norte (North Gate), construído em 1381.

Mas as partes que achei mais interessante durante minha visita foram a cozinha (The Great Kitchens) e o salão principal (The Great Hall), construídos no século XVI.

A cozinha, que é subterrânea e consiste de umas 4 ou 5 peças, tem de utensílios medievais a livros com receitas de 500 anos atrás, passando por fornos onde bois inteiros e pães gigantes eram assados.

Imagina o que era cozinhar banquetes para uma corte inteira, com centenas de pessoas…!

O salão principal (The Great Hall) me impressionou de uma maneira diferente.

Embora ele seja bem bonito, não é em nada mais especial do que salões principais de outros castelos (tínhamos acabado de visitar o do Castelo de Edimburgo).

Mas a guia nos falou sobre a restauração daquela peça e sobre a reconstrução do teto, que teve que ser feita a partir de pouquíssimas referências históricas, e isso me chamou muito a atenção.

E, também, a paixão da guia sobre o assunto, que se dizia triste com o fato de que o carvalho utilizado na restauração vai levar séculos para atingir a cor ideal, que só pode ser obtida por meio do envelhecimento natural da madeira. Achei a emoção dela uma coisa muito fofa.

Para quem tiver interesse no assunto, esse artigo, do blog de Design Eye, fala mais sobre a restauração do castelo.

Último fato histórico sobre o castelo: a rainha Mary, de que também já falei no post sobre a história da Escócia, foi coroada, quando ainda era um bebê, na capela do castelo.

Seu filho, que viria a ser não apenas rei da Escócia como também da Inglaterra, foi batizado e cresceu por lá também.

O castelo fica no alto de um morro, de onde enxerga-se a cidade, o rio Forth e o Monumento a William Wallace.

Quem quiser subir a pé da estação até o castelo vai enfrentar uma longa ladeira, mas em cerca de 20 minutos vai estar lá.

O ingresso é com hora marcada, confira aqui como organizar seu passeio. Estando dentro do castelo, é possível acompanhar uma visita guiada gratuita.

Passeando por Stirling

A cidade cresceu ao redor do castelo. Chegar nela é super fácil, tem trem direto de Edimburgo até lá o tempo todo e a viagem leva menos de uma hora. Aqui está a tabela de horários.

Perto da estação de trens e meio escondida no alto de um prédio, tem uma estátua em homenagem à William Wallace.

Um pouco mais adiante tem uma estátua de um outro personagem famoso da região: Rob Roy.

Rob Roy Mac Gregor (1671-1734) era um fora-da-lei e, ainda durante o tempo em que estava vivo, já tinha sua história contada como a de um “Robin Hood escocês”.

Em 1816, um dos maiores escritores escoceses, Sir Walter Scott, publicou um romance chamado Rob Roy, que esgotou em duas semanas.

No cinema, as versões mais famosas são a da Disney, de 1953, e a de 1995, em que ele foi interpretado por Liam Neeson.

Essa resenha, publicada no site The Conversation, faz uma análise do personagem histórico, do livro e de uma peça de teatro e alguns filmes inspirados (livremente) em Rob Roy.

Para terminar, uma parada no caminho: Falkirk

Para quem vai de carro de Edimburgo a Stirling, é fácil dar uma paradinha em Falkirk para ver essa escultura, chamada Kelpies.

Os nomes desses cavalos Clydesdale de aço são Baron e Duque.

Já o nome da obra, Kelpies, é uma referência ao folclore escocês: os kelpies são espíritos da água, que, em geral, adquirem forma de cavalo.

E cuja maior diversão é afogar os desavisados que andam pela beira dos lagos. Dizem que o monstro do lago Ness seria também um kelpie.

Para saber mais sobre tradições da Escócia, leia meu post Cultura Escocesa: Uísque e Gaita de Foles, Adam Smith e Sherlock Holmes.