A Escócia é parte do Reino Unido da Grã Bretanha desde que perdeu sua independência, há mais de 300 anos.

Mas o orgulho de ser escocês foi transmitido de geração em geração e, apesar da união com a Inglaterra, a população ainda sente-se mais escocesa do que britânica.

É isso o que mostra essa pesquisa da BBC, em que apenas 59% dos escoceses disseram sentir-se “muito britânicos” contra 82% dos ingleses.

Mas o que significa ser escocês?

Segundo a pesquisa, os fatores mais importantes para esse sentimento de identidade são o amor pelas paisagens do país (especialmente as das Highlands ou Terras Altas), pela história da Escócia e por suas tradições culturais.

Eu já te contei sobre a história do país nesse post.

Hoje vamos falar das tradições culturais, incluindo traje típico, culinária, grandes escritores e filósofos e tradições esportivas.

Highlands

As Highlands, ou Terras Altas, ocupam cerca de metade do território escocês, toda a parte norte e noroeste do país.

A região montanhosa e cheia de lagos é onde fica o Lago Ness, aquele do monstro, e onde vários filmes e séries populares foram filmados, como Highlander e Outlander (confiras as locações do seriado aqui).

A história de resistência aos ingleses é muito associada a essa região do país, que, antigamente, era uma área de difícil acesso.

Hoje as Highlands são um dos prinicipais destinos turísticos de quem visita o país.

O traje típico dos habitantes das Highlands

Mundialmente, a imagem mais conhecida da Escócia é um homem usando saia (kilt) xadrex (tartan) e tocando gaita de foles.

Fonte: Unsplash, Linda Hinton

O traje típico, em seu conjunto, é considerado um símbolo da identidade nacional escocesa há bastante tempo.

Tanto que, depois da batalha de Culloden (1746), o governo da Grã-Bretanha proibiu o uso do traje no dia-a-dia. Ele ficou limitado a uso oficial.

E foi o uso do traje pelos regimentos escoceses do Exército Britânico que fez com que a imagem do homem escocês ganhasse o mundo.

Tartan

O tartan é aquele tecido de listras verticais e horizontais que se cruzam sobre um fundo de outra cor.

Embora esse padrão de tecido já existisse há muito tempo e em outros lugares, a partir do século XVI ele passou a ser identificado com as Highlands.

Já a ideia de que cada tipo de tartan representa um clã é bem nova, tem cerca de 200 anos. Esse artigo da revista Celtic Life conta mais sobre isso.

Kilt

Ele começou a ser usado nas Highlands há muito tempo atrás e, inicialmente, se parecia com uma toga romana.

Depois, possivelmente no século XVI, entrou em uso algo hoje chamado “kilt grande”, que era um pedaço de tartan enrolado na cintura. A parte que sobrava era amarrada em cima do ombro.

O kilt no modelo conhecido hoje, na altura dos joelhos e sem a parte superior, é do século XVIII.

Gaita de Foles

A gaita de foles (bagpipe), instrumento musical considerado um dos símbolos da Escócia, existe há milhares de anos. Na história do antigo Egito já aparece uma, feita com pele de cachorro e tubos feitos de ossos.

Como ela chegou na Escócia é um mistério, mas existem duas possibilidades consideradas mais plausíveis.

Uma, é que ela teria vindo do Império Romano, quando as legiões romanas tentaram ocupar a Escócia. A outra, é que ela teria vindo da Irlanda.

Independentemente de onde ela tenha vindo, ela foi adaptada pelos habitantes das Highlands, que lhe deram a forma que ela tem hoje.

Fonte: Historic UK

O instrumento passou a ser usado por eles tanto na paz quanto na guerra, substituindo o tradicional trompete. O site Historic UK conta mais sobre isso (link na foto acima).

O traje típico escocês e a família real britânica

A partir de 1822, quando o rei George IV visitou a Escócia, a monarquia passou a incorporar as tradições escocesas na cultura britânica.

A Rainha Vitória, que governou o Império Britânico de 1837 a 1901, gostava tanto do país que comprou uma casa de campo por lá, para onde ia com a família todos os verões.

Usar tartan em padrões criados pelos estilistas mais famosos do mundo virou tradição na família real.

O site Tartans Authority mostra vários padrões de tartan desenvolvidos por e para eles ao longo dos últimos dois séculos.

Comer e beber

Como falar da Escócia sem falar de uísque, a bebida tradicional do país? Vamos aproveitar pra falar também das especialidades da cozinha escocesa.

Uísque escocês

O uísque é produzido na Escócia há pelo menos 500 anos: o primeiro registro escrito sobre a bebida é de 1494.

Mas acredita-se que ele foi inventado há bem mais tempo e por lá mesmo, na época em que os mosteiros multiplicavam-se pelo país.

Na falta de uvas para produzir vinhos, os monges produziam sua bebida a partir de uma mistura fermentada de grãos de cereais.

Esse destilado passou a ser chamado de uísque, que vem do idioma celta e significa “água da vida”.

Umas das características da bebida é que ela precisa ser envelhecida em barris de madeira (geralmente carvalho).

O que é especial sobre o uísque escocês é que ele geralmente é produzido a partir de cevada maltada – o malte.

Da Escócia, o produto esparramou-se para o mundo, e hoje é produzido em outros lugares.

Para ser considerado uísque escocês não basta ser produzido na Escócia: é preciso ter envelhecido pelo menos três anos no país.

Tipos de uísque

Eles são cinco. O que muda é se ele foi feito só a partir de cevada ou de uma mistura de grãos e se a bebida é resultado de um único ou de vários processos de destilação.

  • Single Malt: só a partir de cevada maltada, tendo passado por um único processo de destilação.
  • Blended Malt: combinação do produto de dois ou mais processos de destilação (ou seja, duas ou mais bebidas), que foram misturados para produzir um novo sabor. A palavra malt significa que todos essas bebidas foram feitas a partir de cevada maltada.
  • Single Grain: a partir de dois ou mais grãos, mas tendo passado por um único processo de destilação (os grãos foram transformados em uma única bebida)
  • Blended Grain: combinação do produto de dois ou mais processos de destilação (ou seja, duas ou mais bebidas), que foram misturados para produzir um novo sabor. Mas, nesse caso, elas eram de uma mistura de grãos (e não de cevada maltada como no Blended Malt)
  • Blended: single malt (cevada maltada, um único processo de destilação) misturado com Single Grain (outros grãos, um único processo de destilação).

Um programa comum de quem visita a Escócia é conhecer uma destilaria de uísque. Se você estiver interessado, leia o site de turismo do país, que apresenta diferentes opções de roteiro.

O que comer na Escócia

Minha guloseima escocesa favorita são os scones.

Eles são uns pãezinhos redondos, que podem ser assados com passas (hummmm…. amooo!!) ou puros. E, normalmente, são servidos com geleia.

Fonte: Unsplash Sarah Kilian

Ninguém tem muita certeza se foi lá, na Inglaterra ou na Irlanda que eles surgiram. Mas a primeira menção escrita é de um poeta escocês, no ano de 1513.

Mas o prato mais tradicional do país é o haggis.

E eu vou começar pela história, já que (spoiler alert!) me parece mais saborosa.

Esse prato surgiu da necessidade. Não era fácil a vida nas Highlands. E, quando se matava um animal para comer, muitas vezes durante viagens que levavam vários dias, era preciso aproveitá-lo da melhor maneira possível.

Algumas partes da carne podiam ser salgadas e, assim, preservadas. Já os órgãos internos eram mais difíceis de armazenar.

A solução encontrada pelos escoceses para não desperdiçá-los foi bem espertinha: misturar o coração, o fígado e os pulmões com aveia, sebo (gordura encontrada ao redor dos lombos e rins) e especiarias e colocar essa mistura dentro do estômago (uma bolsinha bastante conveniente, não?).

Na hora da fome, era só cozinhar a bolsinha por duas ou três horas. E voilá! Estava feito o jantar!

Acredite se quiser: é prato de banquete. E, também, comida popular, encontrada em qualquer lugar na Escócia.

Nos últimos anos o haggis entrou na moda. E cada vez mais chefs famosos criam suas próprias versões de haggis para incluir em restaurantes de luxo.

Eu provei (e só provei!) no Arcade Bar, em Edimburgo. Na minha opinião é gorduroso e pesado, mas gosto não se discute. Meu marido amou.

Legado escocês

Lembra que eu falei que a Escócia pertence à Grã-Bretanha há mais de 300 anos? Essa união com a Inglaterra gerou consequências interessantes para a Escócia.

A primeira foi uma posição de destaque no Iluminismo, movimento intelectual europeu que revolucionaria o desenvolvimento artístico, filosófico e político da humanidade.

Entre os filósofos escoceses dessa fase está Adam Smith, um dos pilares do pensamento econômico da atualidade.

E escritores escoceses produziram clássicos com tal compreensão da natureza humana que suas obras não apenas sobreviveram: continuaram representando muito do que somos até hoje.

Para citar dois desses clássicos, pense em Peter Pan e O médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde).

A segunda consequência interessante foi uma participação ativa na Revolução Industrial.

Um dos nomes mais importantes desse processo histórico é James Watt, um escocês.

É sobre esses e outros personagens e personalidades que a gente vai falar agora.

Filósofos

David Hume (1711-1776)

Ele viveu em uma época em que uma das grandes discussões entre os intelectuais era se o conhecimento podia ser encontrado exclusivamente pelo pensamento racional ou se ele dependia, necessariamente, da experiência.

Filósofo e historiador, Hume acreditava que o uso da razão precisava ser complementado por observação e experiência.

Ele dizia quem, em algumas situações, embora o raciocínio possa estabelecer que algo é provável, apenas um experimento vai comprovar se o raciocínio é, de fato, verdadeiro.

E que havia relações de causa e efeito que, embora não pudessem ser explicadas pelo raciocínio, podiam gerar conhecimento por meio da observação e de experiências passadas.

A ressalva que ele fazia era dizer que essa forma de conhecimento deve ser usada com cuidado, porque nem tudo que parece ter relação de causa e efeito necessariamente a tem.

Essa ideia de Hume, apresentada em seu livro “Tratado da Natureza Humana”, influenciou muitos outros filósofos, incluindo Immanuel Kant e Karl Popper.

Hume está enterrado em Edimburgo, no Cemitério Old Calton.

Adam Smith (1723-1790)

Amigo de David Hume, Adam Smith era professor de filosofia moral e lógica na Universdidade de Glasgow. Seu livro A Riqueza das Nações é um clássico da área de Economia, referência até hoje.

Foi seu interesse em entender a origem do dinheiro e seu impacto na sociedade que o levou a escrevê-lo. Ele apresenta a ideia de  “mão invisível do mercado” para dizer que acredita que os mercados se auto-regulam.

Numa época em que os Estados Unidos ainda eram colônia da Grã-Bretanha, ele usava essa ideia para promover o livre mercado, que, ao facilitar o comércio, resultaria em mais riqueza para todos.

Aqui tem um resumo do livro que vale muito a pena.

Embora a Riqueza das Nações seja sua obra mais famosa, a ideia fundamental de Smith é o conceito de que “o homem é um animal que faz barganhas”.

Segundo ele, o fato de as pessoas agirem em seu próprio interesse e, muitas vezes, dependerem de produtos e serviços produzidos por outras pessoas, levava a essa conclusão. Foi a partir dela que surgiu seu interesse em entender os mercados.

Mais sobre a vida e obra dos dois filósofos pode ser encontrado aqui.

Adam Smith também está enterrado em Edimburgo, no cemitério da igreja Canongate (Royal Mile).

Literatura

O Médico e o Monstro

Um médico decide usar a ciência para trazer à tona a sua “segunda natureza”. Só que ele não consegue controlar o monstro que existe dentro de si.

Esse é o enredo do livro “O Médico e Monstro” (The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde), escrito pelo escocês Robert Luis Stevenson, que tornou-se um clássico da literatura universal.

Ele é um dos livros mais traduzidos e adaptados para cinema e teatro desde que foi escrito, em 1885. Aqui tem uma resenha falando mais sobre o livro e suas diversas adaptações.

Outro livro famoso de Stevenson, também com várias adaptações para outras mídias, é A Ilha do Tesouro (Treasure Island).

Sir Walter Scott e Ivanhoé

Impossível caminhar pela capital da Escócia, Edimburgo, sem ver o gigante monumento que abriga a estátua desse escritor, nascido em 1771.

Esse escocês é muitas vezes considerado não apenas o inventor, como também o maior expoente do gênero literário chamado de romance histórico.

Sua obra mais conhecida é Ivanhoé, um romance que conta a história de um cavaleiro medieval.

O livro foi transformado em muitos filmes. Um deles, com a Elizabeth Taylor, teve 3 indicações ao Oscar de 1953.

Sherlock Holmes

O personagem do escocês Sir Arthur Conan Doyle surgiu em uma história publicada em 1887. A partir daí, criou vida própria.

Conan Doyle tentou matar o personagem em 1893, na história “The final problem“. O autor dizia que o personagem o distraia de coisas mais importantes.

Mas o clamor popular foi tão grande, que, dez anos depois, Sherlock Holmes reapareceu. Conan Doyle continuaria escrevendo histórias de Sherlock por mais duas décadas.

Ao todo, Conan Doyle publicaria 4 romances e dezenas de histórias curtas com o personagem, estas últimas compiladas em 5 livros.

Outro sinal da vida própria de Sherlock Holmes é que sua frase mais famosa (“Elementar, meu caro Watson”) não foi escrita por Conan Doyle.

Sim, Sherlock Holmes usava bastante a palavra “elementar”, também em diálogos com o seu amigo médico, Dr. Watson.

Mas, aparentemente, a frase exata foi apresentada pela primeira vez em 1909, em um texto escrito por um jornalista. Esse artigo do blog Quote Investigator explica essa história.

O endereço Baker Street, 221B, em Londres, onde o personagem teria vivido, é hoje um museu dedicado a Sherlock Holmes.

Peter Pan

O menino que não queria crescer também foi criado por um escocês, Sir James Matthew Barrie.

Depois de estudar na Universidade de Edimburgo e trabalhar em um jornal por dois anos, Barrie foi viver em Londres, onde estabeleceu-se como escritor e autor de peças de teatro.

Peter Pan, seu personagem mais famoso, apareceu pela primeira vez em seu livro “O pequeno pássaro branco”, publicado em 1902.

Mas foi a peça de teatro produzida em 1904 que o tornou famoso. Depois disso, a peça foi remontada muitas vezes e a história também virou filme. Entre suas muitas versões, a mais famosa provavelmente é a da Disney (1953).

Procurando algo mais adulto? Confira no blog Epic Reads outras várias adaptações da história.

Inventores

James Watt

Ele é lembrado toda vez que a gente fala que uma lâmpada tem 60 ou 100 watts.

Nesse caso, watt é a medida de energia utilizada no sistema internacional de medidas.

Mas o nome vem de uma homenagem a James Watt, um escocês que teve papel fundamental na Revolução Industrial, que começou na Inglaterra, na década de 1760.

Watt não inventou o motor à vapor, mas as melhorias desenvolvidas por ele fizeram com que o motor se tornasse mais eficiente usando menos combustível.

Isso foi fundamental para viabilizar sua utilização em múltiplas indústrias, de tecidos a transportes.

Alexander Graham Bell

A gente aprende na escola que esse escocês foi o inventor do telefone.

Bem… na verdade Graham Bell entrou nos livros de história porque foi o primeiro a patentear a invenção do telefone, em uma época em que viveu nos Estados Unidos.

Mas outras pessoas podem ter inventado o “telegráfo de falar” antes.

Conheça nesse artigo o italiano Antonio Meucci e o americano Elisha Gray, que também são candidatos à posição de inventor do objeto.

Música

Para terminar, vamos falar de Ano Novo!

É que a música popular escocesa mais conhecida nos países onde o idioma oficial é inglês é Auld Lang Syne, que virou “tema de ano-novo”.

E você provavelmente conhece também! Espie esse vídeo (6:34) pra conferir e entrar no clima de Reveillon.

A música é cantada em uma mistura de inglês e scots, dois dos três idiomas oficias da Escócia (o outro é gaélico escocês).

Scots é um idioma falado atualmente por menos de 2 milhões de pessoas. Ele sobreviveu apenas porque um dos maiores poetas escoceses, Robert Burns, passou os últimos anos da sua vida resgatando a cultura tradicional do país.

Ele ouviu Auld Lang Syne (que em português significa algo como “Pelos Velhos Bons Tempos”) em uma de suas viagens, escreveu a letra e garantiu que as palavras em Scots fossem mantidas em sua publicação.

Após muitas reproduções, em múltiplas situações e países, a música virou tradição de Ano Novo nos Estados Unidos – e Hollywood garantiu que ela ficasse conhecida no mundo todo.

Se você não viu o vídeo acima, ainda pode ouvir a música nesse mais curtinho, de apenas 27 segundos, em uma cena do filme Harry & Sally, com Billy Crystal e Meg Ryan.

Highland Games

Para terminar o nosso post sobre cultura escocesa, vamos falar de uma tradição esportiva: os Jogos das Highlands.

Eles surgiram de uma forma parecida com a das Olimpíadas: um conjunto de atividades esportivas que teria sido originado a partir de uma corrida. Nesse caso, um rei do século XI estava escolhendo um mensageiro e queria saber quem era o homem mais rápido.

As outras atividades foram sendo adicionadas aos Jogos com o passar do tempo. Só que aqui os atletas jogam mais pesado, literalmente!

As modalidades mais tradicionais são vários tipos de arremesso: de tronco, de martelo, de pedra, de bola de ferro presa numa corrente e de peso de ferro sobre barras.

Pra descontrair, modalidades mais leves, como cabo-de-guerra, corrida e ciclismo, também são parte da programação.

As atividades acontecem em um dia específico do ano, mas em vários lugares do país e em datas diferentes ao longo de todo o período que vai de maio a setembro. É fácil se organizar para assistir um deles ao vivo numa viagem à Escócia.

Vale a pena: os Highland Games são hoje grandes eventos culturais. Além das competições esportivas, há apresentações de música e dança típica, desfiles e muitas barraquinhas vendendo vários tipos de comida e artesanato regional.

Para saber mais sobre os jogos, leia o post do site de turismo na Escócia (em inglês) ou esse post do blog Brasileiras pelo Mundo.