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De ruínas romanas às mais novas tendências do design e da moda, passando por ícones de arte, arquitetura e música, como o afresco A Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, a impressionante catedral, também conhecida como Duomo de Milão, e o Teatro alla Scala, referência em ópera.

Milão, a segunda maior cidade da Itália, combina o clássico com o arrojado, o antigo com o novo. E, programando direitinho, dá pra ver um pouco de tudo isso mesmo em uma curta passagem pela cidade.

É dessa Milão, cheia de vida no passado e no presente, que a gente vai falar nesse post.

Para quem só vai ter tempo de ver as principais atrações da cidade, tem um outro post aqui que fala sobre o Duomo, Leonardo da Vinci e o bairro Navigli.

A origem da cidade

Milão foi fundada pelos celtas, que chegaram ao atual centro de Milão, onde hoje fica o Teatro alla Scala, no século VI A.C..

Trezentos anos depois ela foi ocupada pelos romanos, que fizeram dela um ponto estratégico para a conquista da Gália (no atual território da França). Milão, por essa época, tornou-se uma das grandes cidades do Império Romano.

Chegou a ser sua capital, entre os anos 395 e 402, na época em que o império estava dividido entre Romano do Ocidente e Romano do Oriente. Ainda hoje é possível ver um pouco da história romana caminhando pelas ruas da cidade.

Onde ver a história romana

As ruínas mais bem preservadas são as Colunas de San Lorenzo e a Basílica de São Lorenzo Maggiore, perto da Antiga Porta Ticinese.

As Colunas, 16 ao todo, foram construidas no século II. Por seu tamanho e estrutura, acredita-se que elas  faziam parte de um prédio importante, possivelmente um templo.

A aparência atual é resultado de várias restaurações feitas a partir da Idade Média.

sdrTambém várias igrejas da cidade são do período romano.

A Basilica de San Lorenzo Maggiore, construída entre o final do século IV e o começo do século V, fica bem ao lado das colunas. sdrDentro dela fica a Capela de São Aquino, que é a única parte da basílica que ainda tem a inteiramente a estrutura da época da construção.

Basilica de Sant’Eustorgio, há cerca de 500 metros dali, é a mais antiga de Milão. Nela ainda pode ser vista uma necrópole do século IV.

Outra igreja muito visitada, em função de seus mosaicos com mais de 1000 anos, é a Basílica de Santo Ambrósio. Dá pra fazer um tour virtual: basta clicar aqui e ir até o final da página.

O mosaico mais antigo, criado no século IV, é o que aparece no quadro “San Vittore in Ciel de Oro”.

Para quem tem interesse na história romana, sugiro espiar o site do projeto Milano Archeologia, que  tem como objetivo divulgar o patrimônio arqueológico da cidade. Lá tem várias sugestões de roteiros para quem quer conhecer mais sobre Mediolanum (que é como a cidade se chamava naquele tempo).

A chegada dos Lombardos

No ano de 402, a capital do Império Romano do Ocidente deixou de ser Milão (passou a ser Ravena).

A região começou a ser invadida por povos bárbaros. Um após o outro, chegaram ao norte da Itália Visigodos, Hunos e Ostrogodos.

Mas foi a chegada dos Lombardos, nos anos 568 e 569, que teve maior influência sobre a região. Eles eram uma tribo germânica e ficaram no norte da Itália por 200 anos, durante os quais foram expandindo seu reino para o sul. Foi por causa deles que a área passou a ser chamada de Lombardia.

No século IX, os Lombardos foram expulsos da área pelos Francos, uma outra tribo germânica. O rei dos Francos, Carlos Magno (Charlemagne), então adota o título de Rei dos Francos e dos Lombardos.

Isso seria o início do Sacro Império Romano Germânico, considerado a continuidade do Império Romano do Ocidente.

Mas os sucessores de Carlos Magno não conseguiram manter um controle central por muito tempo. Um século depois o poder político já estava dividido entre condes e bispos, que passaram a controlar cada uma das cidades.

Isso foi bom para Milão, que voltou a crescer.

A cidade medieval

A posição estratégica da cidade facilitou o comércio com cidades das atuais França e Alemanha. Em 1045, Milão passa a ser uma commune, ou seja, uma cidade medieval com instituições governamentais autônomas e permanentes.

Uma das consequências foi o envolvimento da cidade em disputas com outras communes italianas e com o governo central do Sacro Império Romano Germânico. Sem falar no grande conflito político da época: a disputa entre defensores do papa e do imperador.

A paz chega em 1277, quando o arcebispo de Milão, Ottone Visconti, simpatizante do imperador, derrota a família Torriani, simpatizante do papa.

A Milão das famílias Visconti e Sforza (séc XIII – séc XVI)

Sob o governo da dinastia Visconti (1277 – 1447), Milão tornou-se a cidade mais importante da Lombardia. O último Visconti a governar a cidade foi Filippo Maria, mas as instituições governamentais criadas por sua família sobreviveram até o século XVIII.

Filippo Maria tinha uma única filha, casada com Francesco Sforza. E foi assim que, após sua morte, a Milão dos Visconti passou a ser a Milão dos Sforza, que ainda controlaram a cidade, mas de forma intermitente, por mais um século (1447 – 1535).

São do período Visconti-Sforza vários dos marcos históricos mais importantes da cidade – entre eles os três que recomendo para quem pretende passar um ou dois dias na cidade: o Duomo (a grandiosa catedral da cidade), o Castelo Sforzesco (onde Leonardo da Vinci viveu por 17 anos) e Navigli, que começou como um sistema de canais para ligar Milão ao mar e é hoje sinônimo de boêmia na cidade .

Eu falo especificamente sobre esses três assuntos nesse outro post.

Entre os Sforza e a Unificação Italiana (séc XVI a XVIII)

O final do governo da família Sforza foi também o final da auto-determinação de Milão. A cidade sofreu invasões francesas, acabou sob controle dos Habsburgos espanhóis, e, em 1713, passou a ser controlada pela Áustria.

Depois foi consquistada por Napoleão (1796-1814) e, quando a região foi devolvida para a Áustria (1815), Milão passou a fazer parte do Reino Lombardo-Veneziano. E assim, entre trancos e barrancos, Milão chegou ao período da unificação italiana.

Apesar da turbulência do período, a cidade teve seus bons momentos. É dessa época a construção do Teatro alla Scala.

Uma grande casa de ópera

O Scala é considerado uma das principais casas de ópera do mundo. Sua imagem é bastante associada a Giuseppe Verdi, considerado o maior compositor de ópera de todos os tempos.

Verdi é o autor de duas das óperas mais apresentadas no mundo: La Traviata, que é a ópera que Julia Roberts e Richard Gere assistem no filme Uma Linda Mulher, e Rigoletto, famosa pela música La Donna è Mobille, aqui interpretada porLuciano Pavarotti.

Verdi tinha uma relação de amor e ódio com o Teatro alla Scala e, embora tenha começado sua carreira lá, por muitos anos ele não permitiu que suas obras fossem apresentadas na casa, porque dizia que a orquestra tinha modificado algumas de suas músicas.

Mas, depois de ter se tornado um artista mundialmente consagrado, foi com o Scala que produziu suas últimas duas óperas: Otello e Falstaff.

Aqui tem um vídeo de melhores momentos de Falstaff, em uma montagem da Ópera de San Francisco.

Para saber mais sobre os mais de 200 anos de história do Teatro alla Scala, sugiro esse post da rádio Classic FM (em inglês) ou esse, do Blog do Maximus (em português).

Como visitar o Scala

Confesso que chegar na frente do teatro foi decepcionante. É um prediozinho tão comum…

1200px-Milano_scala_2005Fonte: Paolo da Reggio  / Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

Acho que o legal mesmo é assistir uma ópera lá. Mas quem quiser fazer isso precisa planejar muito bem a viagem – sugiro até comprar o ingresso pro espetáculo antes e planejar a viagem depois.

Aqui está o link com a programação da temporada 2018/2019.

Pra quem não é tão louco por ópera assim, há outras opções para entrar no teatro. Aqui estão os tipos de visita disponíveis.

Milão depois da unificação italiana

Na metade do século XIX começou o processo de unificação italiana (o país como conhecemos hoje passou a existir em 1871).

Durante esse processo o Reino Lombardo-Veneziano deixou de existir e a Lombardia passou a ser parte do que seria o novo país.

O grande nome da unificação italiana é Vittorio Emanuele II, que seria o primeiro rei da Itália unificada. Vem daí o nome da galeria que fica entre o Teatro alla Scala e o Duomo de Milão.

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Os destaques do prédio são o centro octagonal, os 4 mosaicos no alto, representando 4 continentes (Europa, América, Ásia e África) e o 4 mosaicos no chão, formando o brasão das cidades de Turin, Florença, Roma e Milão.

Dizem que dar 3 voltas com o salto do sapato nos testículos do touro que aparece no brasão de Turin dá sorte… por via das dúvidas, eu dei as minhas 3 voltinhas…!

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Além de passear pela galeria, é possível andar pelo telhado do prédio.

Tem três maneiras de fazer isso: visitando a Highline Galleria, que é uma passarela no telhado; indo ao Observatório da Funcação Prada, que é um espaço dedicado à fotografia e às artes visuais; ou, ainda, parando no Terraza Aperol, um bar/restaurante super turístico, de onde se tem uma vista bonita para a praça e para o Duomo. Não é pra todos os gostos e bolsos, vale a pena dar uma lida nos reviews do Trip Advisor antes de ir.

Claro, a galeria é também um bom lugar para quem quer fazer compras de luxo na Europa. Lá tem lojas da Prada, Louis Vitton, Versace, Swarovski, etc. Esse post do blog Espalha Factos fala dela e de outros lugares para compras da cidade (com preços bem mais acessíveis).

Brera: arte e prazer

Saindo da Galeria pelo lado do Teatro alla Scala, chegamos na Via Giuseppe Verdi. Seguindo por ela já estamos no distrito de Brera, o queridinho dos vips de Milão.

A Pinacoteca de Brera é considerada uma das melhores galerias de arte da Lombardia e tem quadros de Caravaggio, Raphael e Mantegna.

Pinacoteca di Brera

Pertinho da Pinacoteca tem uma área de pedestres, com ruas charmosinhas, muitos cafés, galerias, boutiques e… quiromantes! Sim, essa senhora de vermelho – e várias outras – estão ali “lendo a mão” dos passantes.

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Até a década de 1950 ficavam nessas área os mais respeitados bordéis de Milão. Junto com os bordéis, claro, uma rica vida boêmia. Esse post do blog Milão nas Mãos conta mais sobre essa época.

A prostituição foi proibida na Itália em 1958 e o distrito ficou esquecido até a década de 1990, quando houve um boom imobiliário na área. Agora, Brera é o lugar da moda e tem o metro quadrado mais caro da cidade.

Esse post do blog Travel Mag e esse artigo da revista Where Milan dão dicas de restaurantes, lojas e hotéis na região.

Capital do Design e da Moda

A Semana de Design de Milão é mais que um evento: são 6 dias durante os quais a cidade respira design.

Neles acontecem o Salão Internacional do Móvel e o Fuorisalone (em português: fora do salão), uma série de eventos descentralizados ligados a design, arte e moda.

Esse mapa mostra, em amarelo, as áreas que concentram os eventos “fora do salão”.

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Fonte: fuorisalone.it

Uma das regiões com a maior concentração de eventos é a Zona Tortona, uma antiga área industrial que é hoje uma das áreas mais badaladas da cidade.

Na Zona Tortona também acontecem muitos eventos ligados à Semana da Moda.

Foi em 1958 que Milão passou a usar o termo Semana da Moda, juntando-se à Nova York e Paris, que vinham usando o termo desde 1943 e 1945, respectivamente. Londres juntou-se a elas em 1984. Hoje, os eventos realizados nas quatro cidades ditam o que será moda na próxima estação no mundo inteiro.

Para quem quer conhecer esse lado de Milão, sugiro dois passeios.

O primeiro é uma caminhada pelo Quadrilátero de Ouro, também chamado de Quadrilátero da Moda, que fica perto do Duomo. Lá ficam as principais lojas de grifes italianas e do mundo todo.

O segundo, que pra mim é o mais interessante, é uma visita à Zona Tortona, considerada um dos centros mais dinâmicos da cidade. Os profissionais de design e moda concentram-se lá e a área é conhecida como berço de novos artistas e tendências.

Achei tão interessante, que em seguida vai ter um post sobre essa região no blog.

Tem tempo pra mais?

Para quem quer ver o que há de mais moderno em Milão, a dica é ir até a futurística Piazza Gae Aulenti, inaugurada em 2012, na zona de Porta Nova.

Seu principal arranha-céu é o prédio Torre Pelli, com um pináculo similar aos do Duomo. Nessa foto é possível ver os pináculos do Duomo em primeiro plano e o do Torre Pelli ao fundo.

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Chegadas e partidas

A estação central de Milão é uma das mais movimentadas da Europa. O prédio imponente foi inaugurado em 1931.

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É também uma das estações mais organizadas da Europa, com 24 plataformas e muitos restaurantes e lojas. Aqui está o link para o site oficial da estação. E, para quem curte viagem de trem, recomendo também o blog Seat 61, especializado em viagens desse tipo.

Para quem chega de avião, o melhor custo-benefício para ir do aeroporto até a cidade é o trem. O aeroporto é bem sinalizado.

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Chegando nas máquinas onde se compra o ticket, compre para Milano Centrale (a estação central de que falei há pouco).

Cuidado na volta: o trem pára em dois terminais. Eu quase perdi meu vôo, porque desci no terminal errado. Espero que você não cometa o mesmo erro, mas, caso aconteça, sem pânico: de 6 em 6 minutos passa um ônibus que te leva de um terminal a outro.

Na cidade, é bem possível que você use o transporte público. Eu comprei um passe para os dois dias cheios em que ia ficar lá e recomendo, dá acesso tanto ao metrô quanto aos bondes e ônibus da cidade. Custou menos de 9 euros. Aqui está o link para ver o preço atualizado e outras opções.

Onde ficar em Milão

Brera é uma boa ideia para quem quer ficar perto de tudo. O distrito, além de ser charmoso e ter a Pinacoteca, fica entre o trio Duomo-Scala-Galeria e o Palácio Sforzesco.

Além disso, para quem gosta de caminhar, Navigli e a Praça Gae Aulenti também são acessíveis à pé. O único problema é que é um bairro caro.

Eu queria pagar o mínimo possível sem me afastar muito do centro e, por isso, fiquei em Lazzaretto, perto do Jardim Público Indro Montanelli. Recomendo. Eu ainda estava perto do trio Duomo-Scala-Galeria (20 minutos a pé), mas, para o outro lado – em direção à estação de trens. Que também era acessível à pé (cerca de 15 minutos de caminhada).

Essa região de Lazzaretto é muito bem servida pelo transporte público. De um lado fica o metrô Porta Venezia (li uns comentários meio assustadores sobre ela antes de ir, mas, na prática, foi super tranquilo) e, de outro, as ruas Viale Vitorio Veneto e Viale Tunisia, onde passam várias linhas de bonde e ônibus que me levavam para todos os lados da cidade.

Outra opção interessante é ficar em Navigli. Tem várias opções de bares e restaurantes para curtir à noite, também é bem servida pelo transporte público e fica entre o Duomo e Zona Tortona.

Para saber mais

O site da prefeitura é bem bom e tem informações sobre a cidade em vários idiomas. Nessa página ele sugere roteiros pela cidade de acordo com o interesse de cada viajante.

Preguiça de pensar muito sobre como organizar o passeio? Tem um roteiro de dois dias pronto nesse post do blog Tudo sobre Milão.

Outro blog que pode te ajudar bastante é o Milão nas Mãos.

E para quem ama mapas como eu, nesse post do blog O Guia de Milão tem um que eu adoro: a cidade dividida em 9 suas zonas e, embaixo, uma lista dos distritos que ficam em cada uma delas.