Se você já leu meu post sobre a história de Berlim, sabe que a Alemanha foi formada em 1871 a partir da união de quatro reinos, três cidades-livres e dezenas de outros territórios.

Um dos quatro reinos era a Bavária (também conhecida como Baviera ou Bayern).

A Bavária é hoje um dos 16 estados que formam a República Federal da Alemanha.

Com 70 mil metros quadrados (área um pouco maior do que o estado do Rio de Janeiro), é o maior estado alemão em termos de território, ocupando praticamente 20% do país.

E é, de longe, o estado alemão mais visitado por estrangeiros.

Fonte: Germany The Travel Destination – Facts and Figures 2023

Os turistas vão até lá para conhecer a cultura considerada “tipicamente alemã”: casas construídas com a técnica enxaimel (Fachwerk), roupas tradicionais inconfundíveis (Lederhosen e Dirnl) e uma das maiores festas populares do mundo, a Oktoberfest.

Nesse post, nós vamos falar da história da Bavária e entender porque é a sua identidade cultural que foi difundida pelo mundo como tipicamente alemã.

Vamos começar pelo período em que o Império Romano e os povos germânicos estavam disputando a região onde hoje fica o estado da Bavária.

Depois, vamos entender a Bavária no contexto do Sacro Império Romano Germânico, que ocupou grande parte do atual território da Alemanha entre os séculos IX e XIX.

Foi nessa época que surgiram as cidades medievais que atraem milhões de turistas para a Bavária todos os anos.

Vamos falar sobre algumas das mais visitadas, como Munique, Nuremberg e Rothenburg ob der Tauber.

E vamos encerrar falando um pouquinho sobre o papel da Bavária na formação da Alemanha moderna (séc. XIX e XX) e sobre os lindos castelos construídos nesse período.

Um deles foi inspiração para Walt Disney ao desenhar os castelos de Cinderela e Bela Adormecida.

Castelo Neuschanstein, a 110 quilômetros de Munique

Surgimento da Bavária: Império Romano e Tribos Germânicas (séc II – séc VIII)

O nome Bavária vem de uma tribo germânica que ocupou a região há mil e quinhentos anos atrás: os Baiovarii (bávaros).

Antes da chegada dos bávaros, a região foi parte do Império Romano.

Lá ficavam as províncias Naetia e Noricum, que você pode ver nesse mapa (Raetia em vermelho e Noricum em cinza).

Províncias Romanas de Trajano (ano 117), Public domain, via Wikimedia Commons

A principal cidade romana na região era Augsburg (Augusta Vindelicorum), fundada no ano 15 A.C. e que existe até hoje. Ela era a capital da província Raetia.

Além das fronteiras do Império Romano, na área amarela do mapa (onde está escrito Germania Magna), viviam  “povos bárbaros”. Eles tinham pele clara, cabelos loiros e olhos azuis, e eram conhecidos pelos romanos como germânicos.

Na medida em que aumentava a interação entre romanos e germânicos, esses últimos passaram a ser identificados em grupos mais específicos.

Uma das primeiros tribos germânicas a cruzar a fronteira e ocupar territórios romanos foi a dos alemmani (que, mais tarde, seriam chamados de suevos).

Eles estabeleceram-se na região que hoje é o sul da Alemanha, ainda no século III. A região que eles ocuparam passou a ser chamada de Suábia (Schwaben).

No século V, chegaram naquela mesma região os bávaros. Suas terras passaram a ser chamadas de Bavária (Bayern).

Os líderes dessas tribos germânicas adotaram um título militar empregado pelos romanos: dux. Por isso, seus territórios passaram a ser chamados de ducados.

Mas o grande impacto no Império Romano foi a chegada de outra tribo, no século V, mais para o oeste, onde fica a atual França.

Eram os francos, que não apenas controlaram o que restava do Império Romano no centro da Europa, como, também, controlaram todos os outros povos germânicos.

No século VIII, os francos controlavam praticamente toda a Europa Ocidental.

Seu reino aparece em verde nesse mapa. Os números indicam em que data cada território foi controlado pelos francos.

Sémhur, translated by Jka, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Onde ver vestígios dessa fase na Bavária

Augsburg foi a principal cidade romana na atual Bavária. Infelizmente, há pouco para ver de suas antigas estruturas na cidade.

Dos artefatos romanos encontrados nas escavações arqueológicas, apenas uma pequena parte está exposta no museu da cidade.

Augsburg é mais conhecida por sua importância comercial mais para a frente, nos séculos XV e XVI. Você pode conhecer mais sobre esse período da cidade aqui.

Há mais para ver sobre a história dos romanos em Regensburg, 150 quilômetros ao norte.

Essa cidade, que voltaria a ter um papel importante na história da Bavária entre os anos 1000 e 1500, desenvolveu-se a partir de uma fortaleza romana chamada Castra Regina (que significa “fortaleza do rio Regen”).

Os seis mil soldados que viviam lá eram parte da linha de defesa do império, chamada Limites do Danúbio (Danube Limes). Por alguns séculos eles conseguiram proteger o Império Romano das invasões germânicas.

Em Regensburg, a gente ainda vê uma torre da fortaleza romana. Ela resistiu ao tempo por ter sido incorporada a construções posteriores.

Conhecida como Porta Praetoria, ela é hoje parte da fachada de um dos prédios eclesiásticos da cidade.

Você pode ver uma foto dessa porta e, também, conhecer outros vestígios da Regensburg romana aqui.

A cidade medieval, considerada uma das mais bem preservadas da Alemanha, é considerada Patrimônio da Humanidade.

Pertinho de Regensburg, há alguns outros pontos interessantes para conhecer a história do Império Romano.

Na pequena Neustadt an der Donau, hoje uma cidade com doze mil habitatantes, havia uma fortaleza, conhecida como Abusina.

A população se orgulha da herança romana e, a cada dois anos, realiza nas ruínas do antigo forte um Festival Romano, super popular na região.

Pertinho dessa fortaleza, os romanos encontraram águas termais. E logo montaram estruturas para banhos, que ainda podem ser vistas no Museu Romano da cidade.

As águas termais continuam sendo o grande destaque da região, conhecida como Bad Gögging.

Para sentir-se como um romano, vale dedicar umas horas para desfrutar da estrutura da cidade-spa, que inclui espaços inspirados na época do império.

Você pode conhecer mais sobre Weissenburg clicando aqui.

Consolidação: Bavária no Sacro Império Romano Germânico (séc IX- séc XVIII)

Como a gente estava falando antes, os bávaros e os suevos instalaram-se na atual região da Bavária, enquanto os francos instalaram-se mais para o oeste, onde hoje fica a França.

A principal diferença entre essas tribos germânicas é que os francos adotaram os costumes romanos muito rapidamente e foram capazes de apropriarem-se também de seu modelo político.

No ano 800, Carlos Magno (Charlemagne), rei dos francos, conseguiu que o papa o proclamasse imperador.

O último imperador na Europa Ocidental havia sido Rômulo Augusto. O ano em que ele foi forçado a deixar a posição, 476, é considerado pelos historiadores como “o fim do Império Romano”.

A verdade não é bem assim. Bem antes disso, o Império Romano já estava dividido em dois, pois era grande demais para ser governado de apenas um local.

O Império Romano Oriental – hoje conhecido como Império Bizantino – era governado a partir da cidade de Constantinopla (atual Istambul, na Turquia) e sobreviveu ainda por mais mil anos (eu já escrevi sobre ele aqui).

O Império Romano Ocidental continuava sendo governado a partir da Itália, até que, em 476, o último imperador foi deposto por uma das muitos tribos germânicas que estavam ocupando os territórios romanos.

Isso deu início a uma fase complicada para os papas, líderes da Igreja Cristã, ainda sediados em Roma.

Para sobreviver sem a proteção de um imperador, seus líderes precisaram fazer alianças com os novos governantes germânicos. Foi um período de bastante instabilidade até a consolidação dos francos.

Após terem chegado no norte da atual França no século V, os francos foram governados por uma única dinastia, a Merovíngia, por três séculos.

Ao longo desse período, eles controlaram praticamente toda a Europa Ocidental (aquele mapa verde que a gente viu há pouco).

No ano 750, o último rei da dinastia Merovíngia foi deposto por Pippin III, fundador da dinastia Carolíngia. Os Carolíngios eram nobres que controlavam o sudeste da atual Alemanha (parte do Reino dos Francos).

O filho de Pippin, Carlos Magno (Charlemagne), já então “rei dos francos e dos lombardos“, conseguiu ser proclamado imperador pelo papa no ano 800.

Assim ele tornava-se o primeiro imperador na Europa Ocidental desde o ano 476.

O papa romano da época, Leo III, tinha bons motivos para proclamá-lo imperador: em 799, o papa tinha sido atacado por uma facção da Igreja que queria outro papa em seu lugar. Leo III teve que fugir e foi protegido por Carlos Magno.

Em troca da proteção do rei dos francos, Leo III proclamou Carlos Magno imperador.

Quando Carlos Magno morreu, o título de imperador passou para seu filho Luis (imperador de 814 a 840). O território, entretanto, foi dividido entre seus três filhos.

Eles brigaram entre eles, e o resultado é que o Reino dos Francos acabou dividido em dois: França Ocidental (Western Frankish Kingdom, que daria origem à atual França) e França Oriental (Eastern Frankish Kingdom, que daria origem à atual Alemanha).

Europe in 900. Mandramunjak, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

A França Oriental, agora governada pela dinastia Carolíngia, era formada pelos antigos ducados germânicos. É dessa época o começo da formação de uma identidade alemã.

França Oriental

A região que mais tarde se transformaria na Alemanha foi governada pelos descentes de Pippin e Carlos Magno até 911, quando outro rei Luis (conhecido como “Luis, a Criança”) morreu, com apenas 17 anos e sem filhos.

Com o fim da dinastia Carolíngia, reassumiram o papel principal da política da França Oriental as antigas tribos germânicas (também chamadas de povos ou nações).

Na historiografia alemã elas são chamadas de Stammesherzogtum (em português: ducado tribal).

Havia cinco ducados. A Bavária era um deles (em laranja no mapa abaixo):

Germany, c. 962, (Col), Adapted from Muir’s Historical Atlas: (1911)

A grande mudança é que agora o rei, ao invés de ser um dos descendentes de Carlos Magno, passaria a ser um dos duques.

O primeiro “rei dos alemães” foi o duque da Francônia, Conrad (rei Conrad I, 911-918). Isso significava a continuidade do poder dos francos (embora não mais os da dinastia Carolíngia) sobre os outros povos germânicos.

Antes de morrer, Conrad indicou o duque da Saxônia para sucedê-lo (rei Henrique I, 919-936). Após Henrique, o rei dos alemães foi seu filho Otto. Ele ficou conhecido como “o Grande” (rei Otto I, 936-973).

Essa transição de poder dos francos para os saxões coincidiu com um período em que o império estava sem imperador: com o fim da dinastia Carolíngia, os papas não estavam encontrando uma liderança forte o suficiente que justificasse o título (deixando a posição vaga desde o ano 924).

Otto, rei dos alemães desde 936, conseguiu preencher esse vácuo: no ano 962 ele seria proclamado imperador pelo papa João XII.

Isso marca uma transição importante: a partir desse momento não se fala mais em França Oriental, mas sim em Sacro Império Romano-Germânico (Heiliges Römisches Reich).

E o que a Bavária tem a ver com isso? Bem, um pouco antes de ser proclamado imperador, o rei Otto I havia dado o Ducado da Bavária para seu irmão (um outro Henrique).

A partir daí, a Bavária ficou sendo transferida de mão em mão pela família imperial, do ano 947 até o ano 1180.

Dinastia Wittelsbach

Isso mudou em 1180, quando um novo rei dos alemães e imperador do Sacro Império Romano Germânico, Frederico Barba-Ruiva (1152-1190), entregou o Ducado da Bavária para um outro Otto: Otto de Wittelsbach.

A família Wittelsbach, que governaria a Bavária por oito séculos, havia sido iniciada algumas décadas antes, quando o conde de Scheyern retirou-se com sua família para um castelo conhecido por esse nome.

O conde adotou o nome do castelo como nome de família. Ao ganhar a Bavária em 1180, seu filho Otto tornou-se o primeiro Wittelsbach a governar a região.

O brasão dos Wittelsbach era azul e branco.

É daí que vem a bandeira atual da Bavária e as toalhas xadrez que nos fazem pensar na Alemanha e na Oktoberfest.

A Bavária se transformaria a partir daí.

A primeira ampliação significativa do seu território foi em 1214, quando Otto II, por meio de casamento, obteve uma região ao norte da Bavária conhecida como Palatinado do Reno (Rheinpfalz).

O poder da família Wittelsbach continuou aumentando e, em 1328, o duque da Bavária tornou-se rei dos alemães e imperador do Sacro Império Romano Germânico (Luis IV, imperador de 1328 a 1347).

Quando ele morreu, suas terras foram divididas entre dois ramos da família.

O norte, que era a região “nova” (Palatinado), ficou com Rupert I, seu sobrinho.

Esse território era muito importante na política da época. Seu governante era um dos sete príncipes eleitores (Kurfürst), que participavam da escolha do rei dos alemães. O próprio Rupert seria eleito rei no ano 1400.

Já o Ducado da Bavária, formado pelos territórios “antigos”, ficou com os filhos de Luis IV. Essa região passou por muitas divisões e reunificações até 1508.

No final do século XIV, por exemplo, a região estava dividida em quatro: Munique, Ingolstadt, Landshut e Straubing.

Ela foi reunificada em 1508, pelo duque Albert IV. Ele também estabeleceu a regra de que o território não seria mais dividido entre herdeiros. Passaria a prevalecer a primogenitura (filho mais velho recebe todo o território).

Isso fortaleceu o Ducado da Bavária, que foi “promovido” a eleitorado em 1623. Isso significa que seu governante, agora chamado de príncipe-eleitor, também participaria da escolha do imperador.

A consequência é que a Bavária passava a ter maior influência na política do império, o que possibilitou, por exemplo, que o príncipe-eleitor da Bavária fosse eleito rei e proclamado imperador (Carlos VII, 1742-1745).

Bavária e Palatinado Reunificados

Em 1777, morreu o último Wittelsbach do ramo da família que governava a Bavária (agora já não um ducado, mas, sim, um eleitorado).

Quem herdou o Eleitorado da Bavária foi um primo distante, daquele ramo da família que governava o Palatinado.

Foi assim que, pela primeira vez em 450 anos, as terras da dinastia Wittelsbach estavam unidas sob um mesmo governante (Carlos Teodoro, 1777-1799).

Seu sucessor, Maximiliano, Eleitor da Bavária de 1799 a 1806, tornar-se-ia o primeiro rei da Bavária, quando os terrirórios da família Wittelsbach foram transformados em reino (1806).

Onde ver a Bavária Medieval

No período em que a Bavária foi um ducado, surgiram centenas de povoados na região. Alguns prosperaram, tornando-se cidades importantes.

Muitas existem até hoje, e várias preservaram suas características medievais. Eu vou te mostrar algumas delas, divididas em dois grupos.

O primeiro é formado pelas cidades que tiveram papel político importante na Idade Média: as capitais Munique, Ingolstatd, Landshut e Straubing.

O segundo é formado por cidades que são destinos turísticos hoje, por ainda terem a aparência que tinham no período medieval: Bamberg, Nuremberg e Rothenburg ob der Tauber.

Munique

A atual capital da Bavária é famosa no mundo inteiro pela Oktoberfest, uma das maiores festas populares do mundo.

Ela dura duas semanas. Nesse período Munique recebe cerca de seis milhões de visitantes (quatro vezes mais que a população da cidade).

Curiosamente, a Oktober, evento que existe desde 1810, não acontece em outubro, mas, sim, na segunda metade de setembro.

É assim desde 1872, quando os organizadores resolveram antecipar a festa para aproveitar o clima mais agradável (outubro normalmente chega com frio e chuva na Alemanha).

Mas a cidade de Munique já existia muito, muito antes dessa festa aparecer.

O nome da cidade vem do alemão München, que significa “Casa dos Monges”. É porque havia um mosteiro na região, pelo menos desde o ano 750.

Em 1157, esses monges receberam autorização para estabelecer um mercado. Essa é a origem da Marienplatz, a praça principal do centro histórico de Munique até hoje.

O melhor lugar para observar a Marienplatz é de cima da torre da Peterskirche (1169), a igreja mais antiga da cidade.

Ela foi foi completamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial. Mas foi reconstruída, seguindo o modelo original.

Lá de cima a gente enxerga a praça, a prefeitura nova (Neues Rathaus) e uma igreja com duas cúpulas, a Fraunkirche.

Eles são alguns dos prédios mais emblemáticos da cidade.

A Frauenkirche é uma igreja gótica construída no século XV. É possível subir em uma de suas torres, de onde se tem a vista mais alta no centro antigo de Munique.

Lá dentro existe um monumento à dinastia Wittelsbach, instalado na igreja em 1622.

O outro prédio que se destaca na praça central é a “nova” prefeitura (Neues Rathaus), finalizada em 1905 em estilo neo-gótico.

Cerca de 600 funcionários trabalham no prédio, mas há várias salas que são abertas ao público. Uma delas é a Biblioteca de Direito, uma das mais bonitas da cidade.

Estando na praça entre março e outubro, você tem a oportunidade de ver a tradicional performance de bonecos que se movimentam ao redor do sino (às 11h, às 12h e às 17h).

Antes de a administração da cidade mover-se para esse prédio, ela funcionava pertinho dali, no prédio ainda conhecido como “prefeitura antiga” (Altes Rathaus).

Ele começou a ser construído em 1310 e foi remodelado muitas vezes.

A última restauração, após a Segunda Guerra Mundial, reconstituiu a fachada gótica que o prédio tinha no século XV. Hoje, no prédio funciona o Museu dos Brinquedos.

No tempo de sua construção, a cidade era cercada por muros. Eles permaneceram em pé até o século XVIII.

Fonte: Matthäus Merian, Public domain, via Wikimedia Commons

Três portas (em alemão, Tor) ainda existem e fazem parte da arquitetura atual da cidade: Karlstor, Sendlingertor e Isartor.

Do lado “de fora” da Karlstor (que hoje é apenas para circulação de pedestres), foi construída uma praça, a Karlsplatz (popularmente chamada de Stachus).

Provavelmente você vai passar por ela se for conhecer o centro histórico de Munique (a área dentro dos antigos muros), já que a Karlsplatz é um ponto central da malha de transportes da cidade.

Outros prédios históricos importante do centro histórico são os dois palácios que serviram como residência para a dinastia Wittelsbach.

O primeiro desses palácios, construído em 1255, é hoje conhecido como Casa Antiga (Alter Hof). Das cinco alas que compunham o prédio durante os dois séculos em que os duques viveram lá, duas resistiram.

O Alter Hof fica a duas quadras da Marienplatz, aquela praça da prefeitura nova. Hoje a gente passa pelo palácio praticamente sem perceber, já que o pátio interno é aberto e está hoje incorporado às calçadas do centro da cidade.

Os duques deixaram de viver lá no final do século XIV. Por questões de segurança, eles mudaram-se para um novo palácio, mais afastado do centro, que aproveitava a estrutura dos muros externos da cidade.

O palácio era chamado Neuveste. Com o passar do tempo ele foi sendo ampliado e, atualmente, é conhecido como Residenz.

Enquanto a dinastia Wittelsbach governou a Bavária (até 1918), essa foi sua casa e local de trabalho, além de ser o centro da vida da corte.

Quando a Bavária deixou de ser uma monarquia, o prédio passou a ser utilizado como museu.

Após ser duramente atingido durante a Segunda Guerra Mundial, ele passou por um longo processo de restauração. Hoje, novamente em seu esplendor, ele está aberto ao público. Saiba como visitá-lo clicando aqui.

Atrás do Residenz você vai encontrar uma imensa área verde. É o Jardim Inglês (Englischer Garten), que se estende por seis quilômetros e é um ponto de parada obrigatório na cidade.

Além de ter um imenso Biergarten (os tradicionais bares de cerveja alemães), com capacidade para sete mil pessoas, lá é um dos poucos lugares do mundo onde você vai ver surfistas no meio da cidade.

Eisbachwelle (ondas do rio Eisbach), em Munique

O resto dos prédios do centro antigo de Munique são dos séculos XVII e XVIII, predominantemente em estilo barroco e rococó.

Outras capitais da Bavária: Landshut, Ingolstadt e Straubing

Lembra que contei que, nos séculos XIV e XV, o Ducado da Bavária foi dividido e reunificado algumas vezes?

Pois é, durante esse período, outras sedes ducais surgiram (além da sede tradicional da dinastia Wittelsbach, que era Munique).

As três sedes ducais desse período foram Landshut, Ingolstadt e Straubing.

Landshut surgiu a partir de um castelo construído em 1204 pelo duque da Bavária, que, na época, ainda governava a partir de Munique.

Quando Landshut virou sede do ducado, nos séculos XIV e XV, foi nesse castelo, chamado Trausnitz, que os duques viveram.

A cidade de Landshut desenvolveu-se ao redor do castelo, que continou sendo ampliado e embelezado pelos séculos seguintes.

Também foi construída uma igreja gótica, a Basilika St. Martin (1389-1500), que é hoje um dos principais prédios medievais da cidade.

Mas o mais interessante da região de Landshut é o castelo Burghausen, a 80 quilômetros da cidade, já na fronteira com a Áustria.

Ele foi a segunda residência dos duques entre 1255 e 1503 e é considerado um dos castelos mais extensos do mundo (mais de um quilômetro).

O prédio está super bem preservado, com muitas estruturas originais ainda em pé.

Nossa próxima parada é em Straubing. Há registros escritos sobre sua existência já no ano 897. O título de cidade foi obtido em 1218.

Durante os séculos XIV e XV, quando foi sede de ducado, foi construído um castelo (1356), que hoje abriga a biblioteca da cidade.

O destaque medieval de Straubing é a igreja de St. Jakob, construída no começo do século XV.

Ingolstadt tem uma história parecida com a de Straubing. A cidade também é mencionada em documentos do século IX, também recebeu o título de cidade no século XIII e também foi sede ducal nos séculos XIV e XV.

Mas foi Ingolstadt que teve a honra de ver nascer a primeira universidade da Bavária, em 1472 (transferida para Landshut em 1800 e para Munique em 1826).

Da Straubing medieval, os destaques são um dos portões do antigo muro da cidade (Kreuztor, séc. XIV) e uma igreja gótica construída no século XV (Liebfrauenmünster).

As cidades medievais mais visitadas da Bavária

Faça uma pesquisa rápida. Tenho certeza de que você vai encontrar esses nomes em qualquer lista de cidades medievais mais bonitas da Alemanha: Nuremberg, Bamberg, Rothenburg ob der Tauber e Würzburg.

Elas são exemplos maravilhosos da arquitetura medieval alemã e parecem ter saído de um conto de fadas.

Bamberg 

Vou começar por uma das minhas favoritas, Bamberg. Ela é considerada pela UNESCO um dos melhores exemplos de cidade do começo da Idade Média, e teve um papel político importante desde o século XI.

Era a fase de formação do Sacro Império Romano Germânico, em que estavam sendo estabelecidas as regras entre o “sacro” (a Igreja, liderada pelo papa sediado na Itália) e o “império” (representado pelo imperador, que governava as terras ocupadas por povos germânicos).

O estabelecimento do Bispado de Bamberg (1007), onde antes havia pouco mais do que um castelo, é considerado o maior legado do imperador Henrique II (973-1024).

Bamberg foi visitada pelo papa em 1020 e, logo, começou a construção da catedral da cidade.

Nela está enterrado o papa Clemente II (1046-1047). Sua história é um ótimo exemplo das relações entre Igreja e Império naquela época, vale a pena contar.

Clemente, que era o bispo de Bamberg, acompanhou o rei dos alemães Henquire III até a Itália, onde este último esperava ser proclamado imperador.

Chegando lá, Henrique descobriu que havia naquele momento três papas em Roma, cada um apoiado por um grupo de nobres.

Pra acabar com a confusão (e ser proclamado imperador o mais rápido possível) Henrique simplesmente destronou os três autoproclamados papas e, em seu lugar, colocou Clemente.

O recém proclamado papa Clemente II, logo em seguida, proclamou o rei Henrique como imperador do Sacro Império Romano Germânico. Fácil assim.

Clemente morreu menos de um ano depois, provavelmente assassinado por seu sucessor. Não era fácil ser político naquela época!

O corpo de Clemente foi transferido para a catedral de Bamberg, onde está até hoje. Também estão enterrados na catedral o imperador Henrique II e sua esposa.

Pertinho da catedral de Bamberg ficam outros dois prédios importantes: o Antigo Tribunal (Alte Hofhaltung) e um palácio que foi transformado em galeria de arte (Neue Residenz).

O Antigo Tribunal serviu de residência para os bispos. A gente entra no prédio por esse pórtico medieval. Lá dentro existe um museu, que conta a história de cidade, e uma capela.

Do outro lado da rua fica um prédio do século XVI, conhecido como a Nova Residência (a nova morada dos bispos).

O prédio, que pode ser visitado, é um luxo. E, de seu jardim florido, a gente enxerga a cidade se esparramando pelas colinas.

Além de expandir-se “colina abaixo”, a cidade expandiu-se “rio adentro”. É que o rio Regnitz abre-se na altura de Bamberg, formando uma ilha.

Nessa ilha foram surgindo muitos prédios. Diferentes pedaços de terra começaram a ser unidos por pontes.

E, ainda no século XIV, surgiu esse prédio, sobre uma das ilhas:

Na época em que foi construído, ele era a prefeitura (Rathaus).

Conta a lenda que ela foi construída aí porque os bispos não queriam que os comerciantes construíssem uma prefeitura na cidade.

E eles teriam criado uma ilha artificial, em território neutro, para construí-la.

No prédio, atualmente, funciona um museu.

Essa pequena ilha onde fica a antiga prefeitura está ligada ao resto da ilha por duas pontes, a ponte de cima (Obere Brücke) e a ponte de baixo (Untere Brücke).

É muito gostoso perder-se pelas ruas medievais e muitas pontes dessa região.

Seguindo pela margem esquerda do rio (Linker Regenitzarm) chegamos à antiga vila de pescadores, hoje conhecida como “Pequena Veneza”.

Já cruzando a margem direita do rio (Rechter Regnitzarm), chegamos à parte mais nova da cidade, onde hoje fica a estação de trem.

Essa área é conhecida como “cidade das hortas” (Gärtnerstadt), pois é nela que viviam os agricultores que iam até a cidade vender seus produtos no mercado.

Esse mapa ajudar a entender a dinâmica da cidade.

Bamberg foi governada pelos bispos até 1802, quando passou a fazer parte da Bavária.

Nuremberg

Nurenberg desenvolveu-se ao redor de um castelo construído em 1040 pelo mesmo Henrique que foi proclamado imperador pelo bispo/papa de Bamberg.

O castelo imperial de Nuremberg (hoje principal atração turística da região) deu origem a uma cidade rica, onde artesãos e comerciantes prosperavam.

Ela foi cercado por cinco quilômetros de muralhas, que chegaram a ter quase 200 torres. Dessas torres, 71 ainda estão em pé.

A partir do final do século XV, Nuremberg transformou-se em uma cidade de artistas e cientistas, sendo reconhecida nos séculos seguintes como um dos centros culturais da Europa.

Foi lá que nasceu o pintor Albrecht Dürer (1471-1528), cujas obras estão hoje expostas nos museus mais importantes do mundo.

Também é de Nuremberg o criador do mais antigo globo terrestre existente ainda hoje, Martin Behaim. Seu globo, finalizado em 1492, está exposto no museu da cidade.

Assim como outras cidades germânicas, Nuremberg sofreu o efeito devastador da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e, no começo do século XIX, perdeu o status de cidade livre ao ser incorporada ao Ducado da Bavária.

Nuremberg é mais conhecida por ter sido o local onde foi instalado um tribunal de guerra em 1945-46.

A cidade, que havia sido um centro nazista na década de 1930, foi duramente bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. Milagrosamente, algumas estruturas medievais resistiram.

Nas décadas seguintes houve um gigantesco esforço de restauração e, graças a isso, o centro medieval recuperou sua forma original.

Nuremberg tem hoje um dos centros medievais mais bonitos da Alemanha e, assim como Munique, está entre as dez cidades mais visitadas do país.

Rothenburg ob der Tauber 

Rothenburg ob der Tauber desenvolveu-se a partir do século X. Entre 1274 e 1803 ela foi uma cidade livre, até ser incorporada pela Bavária.

O período de maior prosperidade foi entre os séculos XIV e XVI.

Rothenburg em 1572. Fonte: Georg Braun; Frans Hogenberg: Civitates Orbis Terrarum, Band 1. Public domain, via Wikimedia Commons

Depois da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), a cidade foi praticamente abandonada.

Ela ficou esquecida até o século XIX, quando artistas, escritores e acadêmicos redescobriram a cidade.

Começaram a chegar turistas. E eles nunca mais pararam de chegar. A cidade de dez mil habitantes recebe 2,5 milhões de turistas por ano.

Além de explorar as ruelas da cidade medieval, eles caminham sobre as muralhas, que tem cerca de quatro quilômetros de extensão. Minhas fotos mais bonitas da cidade foram tiradas de lá.

Rothemburg ob der Tauber

Uma das atrações mais interessantes é a loja Käthe Wohlfahrt, especializada em decoração de Natal e aberta o ano inteiro.

Dentro dela fica o Museu do Natal Alemão, que ajuda a entender as tradições do país.

A maioria dos turistas passa apenas algumas horas na cidade.

E, exatamente por isso, vale muito a pena passar a noite lá. Depois que escurece e de manhã cedinho são os melhores horários para aproveitar a beleza de Rothenburg (que é realmente deslumbrante!).

Würzburg

Deixei Würzburg para o final porque, embora ela seja a mais antiga das quatro, o grande atrativo da cidade é um palácio do século XVIII.

Ele foi encomendado pelo bispo da cidade (que também tinha o título de conde de Schönborn).

O palácio, conhecido como Würzburg Residenz, foi inspirado nos mais modernos de sua época, seguindo o estilo barroco. Ele foi declarado Patrimônio da Humanidade em 1981.

É possível entrar no palácio, mas eu fiquei só nos jardins, que são lindos e enormes.

A outra atração turística importante da cidade é uma fortaleza no alto de uma colina, a Marienberg. Foi lá que Würzburg nasceu.

Essa área já era habitada a milhares de anos, e sabe-se que já existia um castelo e uma igreja lá no ano 704.

A localidade no alto da colina tornou-se sede de um bispado em 741, e teve papel importante na cristianização da população daquela área. Os muros são do século XIII.

Enquanto isso, do outro lado do rio, ia surgindo uma cidade. Ela começou com a construção da nova catedral (séc IX, perto de onde fica a atual Catedral St. Killin) e com o estabelecimento de um mercado (1030).

Os bispos continuaram a viver na fortaleza do alto da colina até o novo castelo do outro lado do rio, ficar pronto no século XVIII.

A fortaleza Marienberg foi bastante destruída durante a Segunda Guerra Mundial, mas, depois de um longo processo de restauração, foi aberta ao público. Saiba como visitá-la clicando aqui.

Do Reino da Bavária ao Estado Livre da Bavária (Freistaat Bayern)

Chegamos a 1806, ano em que o Eleitorado da Bavária transformou-se em Reino da Bavária.

Isso foi no contexto da Revolução Francesa e das Guerras Napolêonicas, um período complicado para a Bavária: ela foi ocupada pela França em 1796, pela Áustria em 1799 e novamente pela França em 1800.

Finalmente, ao aliar-se a Napoleão em 1801, a Bavária teve seus territórios ampliados (ao receber territórios austríacos e parte dos antigos ducados Suábia e Francônia) e foi transformada em um reino independente (1806).

Isso deu-lhe um território parecido com o que a Bavária tem hoje:

Tbp386, OpenStreetMap [2], CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Em 1813, quando começou o declínio da França Napoleônica, o reino da Bavária aproximou-se novamente da Áustria, que estava tentando reorganizar os territórios germânicos sob um novo formato: a Confederação Alemã.

A Confederação Alemã era uma união de 39 territórios germânicos, incluindo os três maiores: Império Austríaco, Reino da Prússia e Reino da Bavária.

Ela existiu até 1866, quando a Prússia enfrentou a Áustria e seus aliados (que incluiam a Bavária) em uma disputa pela liderança dos territórios germânicos. Venceu a Prússia.

Nos cinco anos seguintes, Prússia e Bavária aproximaram-se. O resultado foi a formação do novo Império Alemão (origem da atual Alemanha), que excluia a Áustria.

A constituição do novo império parecia um tratado entre nações independentes. Os territórios mantinham seus parlamentos e legislações e continuavam trocando embaixadores entre eles.

Até a I Guerra Mundial, cada território desenvolveu-se no seu próprio ritmo. A dinastia Wittelsbach continuou governando a Bavária durante esse período.

O rei mais memóravel é Luis II, que construiu o castelo mais famoso da Alemanha, conhecido como “o castelo da Cinderela” (falaremos dele em seguida).

O último Wittelsbach a governar a Bavária foi Luis III, rei que foi deposto em 1918, após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial.

De 1918 a 1932, o Império Alemão foi uma democracia (República de Weimar).

A principal diferença para a fase anterior era que, ao invés de um imperador, agora havia um presidente (eleito por voto popular) e um chanceler (escolhido pelo parlamento). A sede continuava sendo a capital da Prússia, Berlim.

A história da Alemanha nesse período é marcada por crise econômica e instabilidade política, com forte presença de movimentos tanto de extrema-direita quanto de extrema-esquerda.

Havia muita gente na Bavária descontente com a república. Isso possibilitou o crescimento do movimento de extrema-direita e do partido nazista, fundado em Munique em 1919.

Seu líder, Hitler, seria indicado para o cargo de primeiro-ministro (em Berlim) em 1933. Esse ano é considerado o fim da República de Weimar.

Hitler passaria a referir-se à Alemanha sob seu governo (1933-1945) como o III Reich (Terceiro Império) sucedendo ao Sacro Império Romano Germânico e ao Império Alemão.

Depois da Segunda Guerra Mundial, com a queda de Hitler, o III Reich foi dividido em quatro pelos vencedores. A Bavária coube aos Estados Unidos (você pode ver um mapa da divisão da Alemanha aqui).

Em 1949, três dos quatro vencedores (Estados Unidos, França e Inglaterra) consolidaram os territórios germânicos sob sua posse em um único Estado, a Alemanha Ocidental (1949-1990).

Foi um período de desenvolvimento e industrialização para a Bavária, em que pequenas empresas transformaram-se em gigantes multinacionais. Alguns exemplos são a Adidas e a Siemens.

Também foi um período em que foi projetada para o mundo a imagem da Bavária como representação da Alemanha.

E é por isso que símbolos da Bavária, como a Oktoberfest e suas roupas típicas, as casas em estilo enxaimel e o “castelo da Cinderela” tornaram-se ícones do país.

Hoje a Bavária é uma potência econômica, sendo o terceiro estado com maior PIB per capita da Alemanha.

Sua capital, Munique, é o principal hub tecnológico do país segundo esse estudo da Deloitte. Também destacam-se outras duas cidades bávaras: Regensburg e Nuremberg.

Ainda assim, a Bavária continua sendo o estado alemão com maior proporção de população rural: apenas 20% de seus moradores vive em cidades com mais de cem mil habitantes.

Onde ver a Bavária dos séculos XIX a XXI

Pra te contar onde visitar a história desse período, decidi abordar três tópicos.

O primeiro é a vida e obra do rei Luis II, o construtor do castelo mais famoso da Alemanha, Neuschwanstein. Dizem que ele foi a inspiração para Walt Disney desenhar os castelos da Cinderela e da Bela Adormecida (você pode ver as similaridades nesse vídeo)

O segundo é a invenção da Rota Romântica, que liga esse castelo à cidade de Würzburg.

Para terminar, vou te apresentar a alguns dos prédios mais modernos de Munique.

Luis II: Construtor de Castelos e Mecenas de Richard Wagner

Luis II tornou-se rei em 1864, com apenas 18 anos.

Ele nasceu no Castelo Nymphenburg, que, desde sua construção no século XVII, era a principal casa de verão da dinastia Wittelsbach (são apenas 7 quilômetros do Residenz, o palácio da família em Munique).

Os verões com a família também eram passados no castelo Hohenschwangau, que seu pai tinha comprado em 1832 para passar temporadas de caça.

Ela é mais distante de Munique, cerca de 110 quilômetros, e fica no extremo sul da Alemanha, praticamente nos Alpes, a apenas 5 quilômetros da fronteira com a Áustria.

Durante sua adolescência, o príncipe havia lido as obras do compositor Richard Wagner e tornado-se um grande fã.

Quando assumiu o trono, Luis II convidou o compositor para trabalhar em Munique. Mas a extravagância de Wagner, que queria que o rei construísse um teatro especialmente pra ele, forçou Luis a expulsá-lo da cidade apenas um ano depois, em 1865.

A amizade entre os dois perduraria (saiba mais sobre ela aqui), e foi Luis II que financiou a construção da tão sonhada casa de ópera de Wagner – não em Munique, mas em Bayreuth, 230 quilômetros ao norte.

Wagner escolheu Bayreuth por ter encontrado lá uma área apropriada para a realização de seu sonho e, também, pela tradição artística da região.

No século anterior havia sido construída uma casa de ópera em estilo barroco lá, hoje considerada Patrimônio da Humanidade.

A nova casa de ópera, a Festspielhaus, foi inaugurada em 1876, com a estreia da quarta parte de sua grande obra, chamada no conjunto de “O anel de Nibelungen“.

A obra é inspirada em um poema épico germânico do século XIII, Nibelunglied.

Desde então, todos anos acontece o Bayreuth Festival, um evento com performances diárias das obras de Wagner ao longo de um mês. O processo de compra de ticket é complexo e, dizem, há gente que espera anos para conseguir assistir a uma apresentação.

Mas voltemos para Luis II. Depois que Wagner partiu de Munique, a Bavária decidiu aliar-se à Áustria na guerra contra a Prússia (1866), em que foram derrotados.

Foi ainda durante o governo de Luis II que, nos anos seguintes, a Bavária aproximou-se da Prússia, levando à criação do Império Alemão (1871).

Embora tenha conseguido negociar com a Prússia vários privilégios para a Bavária, o governo de Luis II estava desgastado, e ele gradualmente se afastou da vida pública, dedicando-se a seus projetos pessoais.

Além do contínuo suporte à carreira de Wagner, Luis começou, ainda em 1869, a construção de dois castelos nas proximidade de Hohenschwangau (aquele castelo perto dos Alpes em que ele havia passado parte de sua infância).

O mais famoso é Neuschawnstein, inspirado na Idade Média e com muitas referências à obra de seu ídolo, Richard Wagner.

Quem vai até Neuschwanstein, pode aproveitar para visitar também o castelo Hohenschwangau e o Museu dos Reis da Bavária, deixando o carro no mesmo estacionamento.

Fonte: site oficial Hohenschwangau

Um bom lugar para hospedar-se caso você queira conhecer esses prédios é Oberammergau, um vilarejo famoso por suas casas com desenhos na fachada, muitos deles fazendo referência a contos de fada.

A apenas 5 quilômetros há um mosteiro do século XIV, o Mosteiro Ettal, onde há também um hotel 4 estrelas.

Entre Neuschwanstein e o mosteiro, Luis II construiu um outro palácio, em estilo neo-barroco e neo-rococó, o Linderhof. Dizem que sua inspiração aqui foi o Petit Trianon, o castelo de Maria Antonieta nos jardins do Palácio de Versailles.

Eu entrei no palácio Linderhof e achei lindo. Tem tudo o que se espera de um palácio suntuoso, mas em “proporções individuais”. É palácio para uma pessoa. E dizem mesmo que Luis II passava longas temporadas sozinho por lá.

Finalmente, a última obra de Luis II nessa região foi uma casa de montanha, também construída a partir de 1869. Ela pode ser visitada durante o verão, clique aqui para saber mais.

Outro lugar em que as pessoas costumam se hospedar para conhecer essa área é a cidade de Füssen. É uma boa opção para quem está sem carro, já que há boas conexões de trem e ônibus para lá.

Todos esses lugares de que falei ficam a, no máximo, 20 quilômetros de distância um do outro. Fácil de organizar alguns dias de passeio pela região:

A última grande obra de Luis II foi a construção de um outro palácio, Herrenchiemsee, a partir de 1878. Dizem que este teria sido inspirado no palácio de Versailles.

Herrenchiemsee fica em outra região da Bavária, 130 quilômetros para o leste.

A Invenção da Rota Romântica

A Alemanha está cheia de rotas temáticas, criadas especialmente para promover o turismo. Sem dúvida, a mais famosa internacionalmente é a Rota Romântica.

Ela foi criada na década de 1950, ligando Würzburg ao castelo Neuschwanstein. A rota foi um sucesso imediato com o público norte-americano, provavelmente por dois motivos.

O primeiro é que, como a Bavária havia sido área de ocupação norteamericana no pós-guerra, muitos soldados dos Estados Unidos passaram temporadas na região.

Visitar a Rota Romântica era uma boa maneira de levar a família para conhecer os lugares onde eles haviam vivido na Alemanha.

O segundo é que, em 1950, a Disney havia lançado Cinderela, que tinha sido um estrondoso sucesso de bilheteria. Rapidamente as pessoas perceberam as similaridades entre o castelo da princesa e o castelo Neuschwanstein, que logo seria popularizado como “o castelo da Cinderela”.

Como todas as rotas turísticas, há vantagens e desvantagens de “fazer a Rota Romântica”, que, oficialmente, tem 460 quilômetros e passa por 29 cidades.

Eu conheci os dois extremos da rota, em duas viagens diferentes.

Na primeira, fiz o trajeto mais ao norte, de Würzburg a Rothenburg ob der Tauber (cerca de 80 quilômetros).

Fonte: Blog Destino Munique

Würzburg e Rothenburg, sobre as quais já falamos antes, valeram muito a pena. Recomendo muito.

Um dia em Würzburg é suficiente para visitar o palácio e a fortaleza. E dois dias em Rothenburg é o ideal, pra passar a noite por lá.

Mas as paradas no meio do caminho, Creglingen (onde você pode hospedar-se numa torre medieval), Röttingen, Weikersheim, Bad Mergentheim e Tauberbischofsheim, foram apenas ok. Todas medievais, todas bonitinhas, cada uma do seu jeito. Mas nada impressionante.

Hoje, se eu repetisse a viagem, pularia essas cinco e “sairia da rota” para visitar Bamberg (a 80 quilômetros de Würzburg) ou Nuremberg (a 70 quilômetros de Rothenburg).

Na minha segunda visita à Rota Romântica, fui direto para o outro extremo, para Schwangau. Meu objetivo principal era visitar o “castelo da Cinderela”, e aproveitei para conhecer o palácio Linderhof.

Amei os dois. E ainda quero visitar essa área com mais tempo, porque me apaixoinei pela paisagem de montanha e pelos vilarejos com casas enxaimel, tudo exatamente como eu achava que era a Alemanha.

O trecho que me faltou para completar a Rota Romântica são os cerca de 300 quilômetros entre Schwangau e Rothenburg.

Confesso que a única cidade que me atrai nessa área é Augsburg. Não acho que valha a pena fazer 300 quilômetros para isso – mas eu posso estar errada!

Forme sua própria opinião lendo esse blog post sobre a rota romântica ou o site oficial da rota.

Arquitetura do século XXI em Munique

Vamos terminar conhecendo alguns dos prédios mais modernos da capital bávara.

Eu andei pelo shopping Fünf Höfe, que parece pequeno e antigo pelo lado de fora, mas surpreende quando estamos lá dentro.

Ele fica no centro histórico de Munique, pertinho da praça central da cidade (Marienplatz).

Fora do centro histórico, mas a apenas onze minutos a pé da Marienplatz, fica o The Seven, um complexo de prédios considerado um dos mais modernos dessa região. Ele é formado por um prédio comercial e uma torre residencial.

Mais afastado do centro histórico, já pertinho do palácio Nymphenburg (onde o rei Luis II nasceu), fica a mais nova igreja católica da cidade, a Coração de Jesus.

O que você acha dela? Ela foi construída pela firma de arquitetura Allmann Wappner, você pode saber mais sobre o projeto aqui.

Para Saber Mais

Já escrevi outros dois posts que podem ser interessantes para quem chegou até aqui.

Em 4 Maneiras de Incluir a Alemanha no seu Roteiro pela Europa, uma das minhas sugestões é conhecer a Bavária em uma viagem de quatro dias a partir do norte da Itália.

Lá eu explico direitinho como fazer isso com ou sem carro.

Em História da Prússia: Entenda porque Berlim é a Capital da Alemanha, eu conto sobre a região nordeste do país e seu papel na formação da Alemanha atual.

Se você quer mais dicas sobre como organizar um passeio pela Bavária, espia o blog Destino Munique e o blog Vou Pra Alemanha.

E aqui tem um post bem completo sobre a Rota Romântica.